Tannen Maury/EFE
Tannen Maury/EFE

Governo Trump executa 2º preso federal esta semana após hiato de 17 anos

Associações de defesa dos direitos humanos e democratas acusam o presidente de retomar execuções para melhorar seu apoio junto ao eleitorado conservador e desviar a atenção da população no momento em que a pandemia de coronavírus se agrava

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 17h20

WASHINGTON - Um homem condenado à morte por assassinato foi executado nesta quinta-feira, 16, com uma injeção letal nos Estados Unidos por um crime federal, apesar das alegações de seus advogados de que ele sofria de demência. O governo do presidente Donald Trump retomou as execuções federais após um hiato de 17 anos.

Wesley Ira Purkey, de 68 anos, do Kansas, foi o segundo condenado federal a ser executado nesta semana, após a morte de Daniel Lewis Lee, de 47 anos, na terça-feira. Duas outras execuções estão agendadas para sexta-feira e para 28 de agosto. 

Associações de defesa dos direitos humanos e os democratas acusaram hoje o presidente americano de retomar as execuções para melhorar seu apoio junto ao eleitorado conservador e desviar a atenção da população no momento em que a pandemia de coronavírus se agrava.

"Não havia razão para esta administração retomar agora as execuções federais, após um hiato de quase duas décadas, durante a pior crise de saúde pública das nossas vidas, exceto para nos distrair das suas decisões", disse a diretora da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), Cassandra Stubbs. 

“Nada daria mais prazer ao presidente do que um debate nacional sobre o sistema criminal. Esse tipo de coisa entusiasma sua base eleitoral”, disse Andrew Cohen, do Brennan Center for Justice, instituto da Universidade de Nova York. “A única surpresa é que ele não tenha retomado essas execuções antes.”

Purkey foi declarado morto às 8h19 (hora local) na prisão de Terre Haute, no Estado de Indiana, informou o Departamento de Justiça. Um jornalista do Indianapolis Star que testemunhou a execução disse que Purkey parecia lúcido e consciente de seu entorno depois de ser amarrado a uma maca. 

"Lamento profundamente a dor e o sofrimento que causei à família de Jennifer", disse o condenado em suas últimas palavras, nas quais considerou que sua morte "é inútil". "Lamento profundamente a dor que causei à minha filha, que eu amo muito."

Purkey foi condenado em 2003 por estuprar e assassinar Jennifer Long, de 16 anos, antes de desmembrá-la e queimar seu corpo. Depois disso, ele jogou as cinzas em uma fossa séptica, em 1998.  O prisioneiro também já tinha sido condenado pela morte de uma mulher de 80 anos. 

Sua execução foi adiada várias vezes, graças aos recursos de seus advogados, que alegaram que o executado sofria de Alzheimer e esquizofrenia. 

Rebecca Woodman, uma das advogadas de Purkey, alegou que ele sofreu "sérios danos cerebrais e doenças mentais". "Embora ele aceite a responsabilidade por seu crime há muito tempo, ele não tem mais um entendimento racional", para enfrentar a execução, acrescentou a advogada antes de sua morte. 

A execução da Purkey estava marcada para a quarta-feira, mas foi bloqueada pela juíza federal Tanya S. Chutkan, de Washington, que aceitou o argumento da defesa. Com isso, o caso foi decidido nesta manhã pela Suprema Corte, com cinco votos a favor da execução e quatro contra.

O pai e a madrasta de Jennifer Long, William e Olivia Long, criticaram os constantes recursos apresentados pela defesa de Purkey ao longo de todo o processo. "Demorou demais. Todos estes recursos, alguns deles repetidos várias vezes. Não deveríamos ter de esperar tanto tempo", desabafou Olivia.

Novas execuções previstas

O secretário de Justiça, William Barr, anunciou no ano passado o fim da moratória de execuções federais, em vigor desde 2003, ecoando a vontade de Donald Trump. 

Lewis Lee, ex-supremacista branco condenado pelos assassinatos em 1996 de três membros de uma família, foi executado por injeção letal na terça-feira na mesma prisão que Purkey. 

Outro prisioneiro federal, Dustin Lee Honken, de 52 anos, será executado na sexta-feira por cinco assassinatos, incluindo os de duas meninas, com idades entre 10 e 6 anos. 

Nos EUA, a maioria dos crimes é julgada em nível estadual, mas a justiça federal pode lidar com os crimes mais graves (ataques terroristas, crimes racistas) ou cometidos em bases militares. 

Uma das execuções federais mais lembradas é a de Timothy McVeigh, executado com a injeção letal em 2001 pelo ataque a um prédio federal em Oklahoma em 1995 que matou 168 pessoas.

Legal nos EUA desde de 1976, a pena de morte foi restabelecida no nível federal em 1988, mas só foi executada três vezes antes da execução de Lee, a última em 2003. 

Mais de mil líderes religiosos nos EUA pediram a Trump na semana passada que abandonasse os planos de retomar as execuções federais. Entretanto, o presidente, enfrentando uma dura batalha de reeleição em novembro, manifestou seu desejo de ver a pena de morte ser expandida, especialmente para traficantes de drogas e assassinos de policiais. 

Apenas alguns Estados americanos, principalmente no sul conservador, ainda recorrem a execuções. Em 2019, 22 pessoas foram executadas.

Embora o apoio à pena de morte tenha sido corroído entre os americanos, segundo as pesquisas, ele permanece forte entre os eleitores republicanos. Entre eles, 77% são a favor dessa punição para assassinos. /AFP e EFE 

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