Meghan Dhaliwal/The New York Times
Meghan Dhaliwal/The New York Times

EUA pagarão US$ 20 milhões ao México por deportação de imigrantes

Governo Trump informou ao Congresso que realocará verba destinada a ajudar o país vizinho com pagamento de passagens de ônibus e avião para deportar até 17 mil pessoas que estão ilegalmente em território mexicano, principalmente imigrantes da América Central

O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2018 | 14h48
Atualizado 13 Setembro 2018 | 20h11

WASHINGTON - Donald Trump promete desde junho de 2015, quando lançou sua campanha à Casa Branca, que o México pagará pela construção de um muro na fronteira dos dois países. A mais recente iniciativa de seu governo contra a imigração ilegal, no entanto, vai na contramão dessa proposta já que os EUA pretendem pagar ao México pela deportação imigrantes ilegais.

Em um aviso enviado recentemente ao Congresso, o governo americano afirmou que pretende usar US$ 20 milhões de fundos para assistência a outros países para ajudar o México a pagar passagens de ônibus e avião para repatriar até 17 mil pessoas que estão ilegalmente no território mexicano.

Desta forma, os EUA esperam ampliar a deportação de imigrantes da América Central, que usam o México para tentar chegar aos EUA. O México também poderá usar essa verba para deportar qualquer imigrante sem documentação em seu território ou pessoas que estejam em listas por suspeita de terrorismo.

Katie Waldman, porta-voz do Departamento de Segurança Interna dos EUA, afirmou que o programa ajudará a reduzir o fluxo migratório na fronteira entre os dois países.

"Estamos trabalhando de perto com nossos parceiros mexicanos para confrontar diretamente o número crescente de apreensões na fronteira - neste mês, especificamente, um aumento de 38% na quantidade de famílias - e para garantir que os que tenham alegações legítimas possam ter acesso a medidas adequadas de proteção", disse Katie.

A apreensão de famílias cresceu em agosto, após três meses de queda em razão da política de tolerância zero. O país mantém 12.774 famílias apreendidas na fronteira com o México. 

O plano, que foi debatido internamente pelo governo Trump durante meses, é parte de um esforço maior da administração republicana de redirecionar bilhões de dólares destinados a programas de assistência no exterior para outras prioridades.

O governo ainda tem cerca de US$ 3 bilhões disponíveis para gastar nessa área de acordo com a verba alocada pelo Congresso no ano passado após um acordo entre o Partido Republicano e o Partido Democrata sobre o orçamento federal americano. Centenas de milhões de dólares originalmente destinados a ajudar a estabilizar a Síria e apoiar escolas e hospitais palestinos já foram redirecionados pelo governo Trump.

Apesar de a atual administração americana ter feito vários anúncios para explicar sua decisão de não usar esse dinheiro de acordo com as prioridades estabelecidas pelo Congresso, em geral Washington não detalhou qual o novo destino da verba.

Na capital americana, no entanto, é notória a insatisfação do governo com o fato de o Congresso ter alocado bilhões de dólares para ajudar outros países ao mesmo tempo em que se recusou a financiar as prioridades de imigração de Trump. No caso deste plano, o dinheiro será transferido do Departamento de Estado para o Departamento de Segurança Interna e, então, enviado para o México.

"O Congresso pretendia que esse dinheiro fosse usado ajudar na recuperação de comunidades que lidam com o crime, a corrupção e tantos outros desafios, não para expandir a cruzada de deportação deste governo", afirmou o deputado Eliot Engel, de Nova York, o principal político democrata na Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

"Eu quero respostas com os motivos pelos quais o Departamento de Estado acha que pode ignorar o Congresso e desperdiçar mais dinheiro nos esforços de deportação. Enquanto não acontecer, vou fazer tudo que puder para parar isso (a transferência de dinheiro pelo governo)."

A manobra é o esforço mais recente do governo Trump para reduzir o número de imigrantes que cruzam a fronteira sul dos EUA. A principal iniciativa do plano até agora foi a política de “tolerância zero” que resultou, no entanto, na prática amplamente criticada de separar as crianças de seus pais na fronteira, e gerou uma crise humanitária e política para Trump.

Mas os conselheiros de Trump também já aplicaram outras estratégias para deter imigrantes, incluindo a reformulação das regras sobre quem pode se qualificar para pedir asilo nos EUA.

Grupos que defendem imigrantes nos EUA disseram que enviar dinheiro ao México para ajudar nas deportações é uma forma incorreta de usar a verba e que não resolve os problemas que levaram esses imigrantes a viajarem para o México e, de lá, para os EUA.

"Não deveríamos pagar outro país para fazer o nosso trabalho sujo; deveríamos, na verdade, corrigir nosso sistema de imigração e ajudar estes países a se restabelecerem de forma sólida", disse Ali Noorani, diretor executivo do Fórum Nacional de Imigração (NIF, em inglês). "Isso cheira a desespero." 

Crianças presas

O governo americano mantém atualmente 12,8 mil crianças imigrantes em abrigos do país, segundo o jornal New York Times – um aumento de 433,3% em relação a maio de 2017. O salto não é resultado do aumento do fluxo, mas da redução de menores liberados para viver com parentes nos EUA. A maioria cruzou a fronteira sozinha. 

O Itamaraty disse nesta quinta-feira, 13, que há sete menores brasileiros em abrigos nos EUA. Segundo o governo, eles tentaram entrar “desacompanhados ou acompanhados de terceiros que não eram seus pais”. / NYT COM LU AIKO OTTA

 

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