Governo turco acena com diálogo e pede desculpa, mas protesto continua

Crise na Turquia. Milhares de manifestantes se reuniram no Parque Gezi, em Istambul, com gritos de ordem contra a construção de um shopping e pedindo a renúncia do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan; polícia reduz a repressão e violência diminui

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / ISTAMBUL, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2013 | 02h10

Aos gritos de "Tayyip, renuncie", dezenas de milhares de turcos voltaram ontem às ruas de Istambul, amplificando os protestos contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. Mobilizada na Praça Taksim e no Parque Gezi, a população não foi importunada pela tropa de choque, que ontem desapareceu.

Além de reduzir a repressão e a violência, o governo pediu desculpas pelos confrontos e disse que "considerará as lições" vindas das ruas. Os protestos entraram ontem em seu oitavo dia, cinco dos quais de confrontos. De acordo com balanço realizado por organizações humanitárias, pelo menos 2,5 mil pessoas ficaram feridas em Istambul e na capital, Ancara.

Segundo informações extraoficiais, três pessoas morreram - apenas uma morte foi confirmada pelo governo - nos choques que também ocorreram em cidades como Izmir e Antáquia.

Ontem, após ameaças feitas por Erdogan, que alimentaram a insatisfação popular, o primeiro-ministro adjunto, Bülent Arinç, concedeu entrevista na qual pediu desculpas pela repressão violenta e reconheceu que a opinião pública tinha razão nas críticas ao projeto urbanístico, que previa a destruição do Parque Gezi para a construção de um shopping center e a reconstrução de um quartel histórico destruído 80 anos atrás. "Apresento minhas desculpas a todos os que foram vítimas de violência, pois eles foram sensíveis à defesa do meio ambiente", afirmou Arinç, logo após um encontro com o presidente Abdullah Gül.

De acordo com o premiê adjunto, as manifestações são "justas e legítimas", um discurso oposto ao de Erdogan, que havia qualificado os ativistas de "terroristas" na segunda-feira. "Nem todos são obrigados a nos apreciar e estamos abertos à opinião dos que não nos apoiam", garantiu, reforçando o tom democrático após as críticas de que o governo age com autoritarismo. Arinç pediu aos manifestantes que retornem às suas casas. "Eu apelo aos sindicatos, a todos os partidos e àqueles que amam e pensam na Turquia que o façam hoje", exortou.

O que o Estado presenciou nas ruas de Istambul, entretanto, foi o contrário. Depois de uma madrugada na qual a multidão enfrentou pacificamente o gás lacrimogêneo lançado pela polícia, a manhã de ontem começou calma, com a Praça Taksim vazia. No início da tarde, porém, ativistas de todas as idades, como sindicalistas, militantes de partidários e torcedores de clubes de futebol - os "ultras" -, tomaram aos poucos a praça e o Parque Gezi. No início da noite, um centro cultural próximo à praça foi ocupado, com slogans como "cale-se, Tayyip".

Com o passar das horas, e sem a repressão da polícia - que desapareceu das ruas de Istambul, após choques esporádicos pela manhã -, Gezi foi ocupado por dezenas de milhares de pessoas, em uma atmosfera de festa.

Mas nem todos pediam a cabeça de Erdogan. Muitos desejam apenas passar uma mensagem forte ao poder, para que respeite as liberdades individuais e não promova mais reformas conservadoras de cunho islamista. "Esse é o paradoxo das manifestações: a Turquia está insatisfeita com Erdogan, mas não dispõe de outros partidos que representem uma alternativa democrática de poder", entende o ativista de direitos humanos Baris Mumyakmaz.

Para o diretor de fotografia egípcio Muhammed Hamdy, que viveu no Cairo a Primavera Árabe, presenciar o movimento na Turquia é a prova de que a mobilização é internacional. "É uma prova de que as pessoas querem ser reconfortadas em seus desejos de mais liberdade e democracia."

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