Governo uruguaio anuncia fim da procura dos desaparecidos

O presidente Tabaré Vázquez anunciou nesta terça-feira o estabelecimento do dia do "Nunca Mais" uruguaio, para recordar os crimes cometidos pela Ditadura Militar (1973-85). A intenção é que graves violações aos Direitos Humanos nunca mais se repitam no Uruguai. Para isso, escolheu o dia 19 de junho, data do nascimento do herói da independência uruguaia, José Gervasio Artigas. O presidente Vázquez também causou polêmica ao anunciar que o governo encerrou a etapa - iniciada há um ano e meio - de procura dos corpos dos desaparecidos da Ditadura. Segundo Vázquez, a medida não se trata, de forma alguma, de colocar um "ponto final" sobre as investigações. O presidente destacou que agora começa uma nova etapa na qual será colocado mais ênfase na procura dos desaparecidos uruguaios nos outros países da região.Daqui para a frente, o governo não promoverá a procura. Mas, uma "Secretaria de Acompanhamento" analisará denúncias sobre o paradeiro de corpos. Ao longo do último ano e meio, apesar das escavações realizadas pelo governo em várias áreas do país (principalmente nos terrenos dos quartéis) somente dois cadáveres de desaparecidos foram recuperados. Os organismos de defesa dos Direitos Humanos afirmam que os militares estão escondendo os dados que supostamente teriam sobre os assassinatos de civis durante a Ditadura e os lugares onde os corpos foram enterrados.O governo Vázquez sustentou que a idéia é de "dar um passo no caminho da reconciliação da sociedade uruguaia". Mas, os organismos de defesa dos Direitos Humanos e sindicatos criticaram intensamente a decisão de Vázquez. Luisa Cuesta, uma das líderes da Associação de Parentes de Detidos Desaparecidos, protestou: "A reconciliação não se decreta".A Ditadura foi responsável pelo assassinato de 32 uruguaios dentro do território desse país. Outros 132 uruguaios foram assassinados nos outros países do Cone Sul dentro do "Plano Cóndor", esquema de cooperação das ditaduras da região nos anos 70. A Ditadura deteve mais de 60 mil pessoas suspeitas de subversão. Por causa da violência do regime, 500 mil uruguaios partiram em exílio.Lei do perdãoOs militares e policiais que cometeram violações aos Direitos Humanos durante a Ditadura (1973-85) no Uruguai foram beneficiados em 1989 com a Lei de Caducidade Punitiva do Estado (lei de anistia). Ao longo da última meia década os organismos de Defesa dos Direitos Humanos tentaram driblar o perdão aos militares abrindo processos em flancos que a Lei de Caducidade não havia previsto, tal como os crimes cometidos no exterior (vários oficiais foram extraditados por crimes no Chile, enquanto que outros aguardam a extradição por crimes realizados na Argentina) e o seqüestro de crianças. Além disso, os organismos também decidiram processar os civis que integraram a Ditadura e que não estão incluídos na anistia.Este flanco aberto permitiu que há poucas semanas o ex-presidente civil Juan María Bordaberry (autor do golpe de Estado de 1973, transformando-se logo depois em um títere dos militares) fosse detido pela acusação de co-autoria de homicídio agravado dos senadores Zelmar Michelini (na época, um dos principais líderes da oposição) e Héctor Gutiérrez Ruiz, além dos tupamaros Rosario Barredo e William Whitelaw. Os assassinatos foram cometidos em Buenos Aires, dentro do esquema do "Plano Cóndor", o sistema de cooperação entre as Ditaduras do Cone Sul nos anos 70.

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