Governos aproveitam terrorismo para reprimir dissidentes

A guerra promovida pelos Estados Unidos contra o "terrorismo" transformou-se numa desculpa comum para que governos de todo o mundo passassem a reprimir grupos internos de oposição e silenciar dissidentes políticos, informou nesta quarta-feira o grupo de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW). Um documento divulgado pela entidade revela que alguns governos "aproveitaram-se da luta norte-americana contra o terrorismo". O HRW citou como principais agressores os governos de Rússia, Israel, Usbequistão e Egito. Segundo o relatório, alguns países estão promovendo guerras indefensáveis contra seus oponentes políticos, não contra terroristas. "Terroristas são pessoas que acreditam que vale tudo em nome de sua causa", disse Kenneth Roth, diretor-executivo do grupo, com sede em Washington. "A luta contra o terror não deve assumir esta lógica. Os princípios dos direitos humanos não podem ser comprometidos em nome de nenhuma causa." O Departamento de Estado dos EUA recusou-se a comentar o assunto. De acordo com o documento, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, defende a escalada das ações militares na Chechênia como parte da guerra ao terrorismo. Funcionários da Organização das Nações Unidas criticaram o governo russo por causa de algumas de suas retaliações aos ataques dos rebeldes chechenos. Viktor Kazantsev, enviado de Putin à conturbada região, declarou nesta terça-feira que as "operações antiterrorismo" deverão ser encerradas até o fim do ano, segundo a TV6. O relatório lembra ainda que o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, referiu-se em diversas ocasiões ao presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, como "nosso (Osama) Bin Laden". Ele também fez diversas declarações na tentativa de comparar a luta israelense contra os palestinos com a guerra declarada pelos Estados Unidos contra o terrorismo. O documento diz também que o ministro chinês das Relações Exteriores, Tang Jiaxuan, defendeu a resposta de seu governo contra a agitação política na província de Xinjiang como ação antiterrorista. Por sua vez, o primeiro-ministro do Egito, Atef Abeid, descartou as críticas contra torturas e julgamentos militares sumários e sugeriu que "o Ocidente deveria pensar na luta do Egito contra o terrorismo como seu novo modelo". Em outro caso citado pela Human Rights Watch, o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, tentou justificar como ataque contra os "defensores do terrorismo" sua ofensiva contra jornalistas independentes que relataram abusos cometidos por seu governo. Alguns cientistas políticos interpretam tal tendência como alarmante. "Não restam dúvidas de que o terrorismo está na crista da onda e explicar algo como luta antiterrorista é a forma mais rápida de ter os Estados Unidos engajados", diz Ralph Tagern, pesquisador do Instituto sobre Política do Oriente Médio. "Porém, muitas dessas lutas nada têm a ver com o terrorismo. São lutas antigas por independência e outras questões", conclui Tagern. Ali al-Ahmed, funcionário do Instituto Saudita, com sede em Washington, disse que a guerra contra o terrorismo transformou-se em desculpa para qualquer ação militar adotada por um governo. "É inaceitável que os Estados Unidos fechem os olhos para o que alguns líderes do Oriente Médio estão fazendo sob o pretexto de guerra ao terror", afirma. Ainda nesta quarta-feira, em Genebra, a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, a irlandesa Mary Robinson, pediu aos Estados Unidos que respeitem os direitos humanos dos combatentes capturados pertencentes ao Taleban e à Al-Qaeda e levados à base naval de Guantánamo, em Cuba. "Todas as pessoas detidas são protegidas pelas leis humanitárias e pelas leis internacionais de direitos humanos", afirmou. "Gostaria de ouvir uma afirmação segura de que esses preceitos são princípios fundamentais e fazem parte da lei dos países democráticos, ao invés de ouvir concessões relutantes de que determinadas condições humanas serão respeitadas." Leia o especial

Agencia Estado,

16 Janeiro 2002 | 16h38

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