Governos árabes silenciam sobre condenação de Saddam

Os Governos árabes guardam um grande silêncio sobre a condenação à morte do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein. Os órgãos de imprensa oficiais também não comentaram o significado da sentença, inédita na história árabe contemporânea. Nesta segunda-feira, primeiro dia depois da divulgação da condenação à morte por enforcamento de Saddam e dois de seus ex-colaboradores, a imprensa oficial se limitou a noticiar o resultado, sem acrescentar comentários. O silêncio eloqüente chamou a atenção dos poucos veículos da imprensa árabe independente, como a rede de televisão Al-Jazira e o jornal Al-Hayat, que destacaram que apenas os políticos de oposição se atreveram a quebrar as regras. Até o habitualmente loquaz Amre Moussa, secretário-geral da Liga Árabe, afirmou em Damasco: "Não comento veredictos da Justiça, mas sim os acontecimentos no Iraque". Moussa não escondeu sua "profunda preocupação" com o que ocorre nas ruas iraquianas. Em nenhuma das grandes capitais árabes - Damasco, Cairo, Amã e Riad - se quis tirar alguma conclusão ou significado da condenação de Saddam. Agora, a efervescência vivida nos dias da queda do regime de Saddam e da posterior ocupação do país não encontra paralelo na região, onde se instalou um clima cada vez mais cético e fatalista depois da sentença de Saddam. Interpretando este silêncio oficial, o número dois dos Irmãos Muçulmanos egípcios, Muhammad Habib, afirmou no domingo que a condenação de Saddam à morte é uma mensagem aos governantes árabes para que "aceitem mais condições e ordens americanas". "Somos obrigados a escolher entre um sistema ditatorial e a ocupação opressora que traz a morte, o abandono dos lares e a destruição do Iraque?", perguntou Habib. Os colunistas que se pronunciaram nesta segunda-feira na imprensa sobre a condenação de Saddam concordaram com o caráter político e não meramente jurídico da sentença. A maioria vê uma relação clara entre a leitura da sentença e a realização das eleições legislativas nos Estados Unidos, marcadas para terça-feira. "A sentença é uma tentativa deliberada de relançar os republicanos nos EUA, já que podem ser derrotados nas eleições e imaginam que isto poderia lhes dar a esperança de um novo êxito, algo em que só os ingênuos acreditam", apontou Imad Shueibi, presidente do Centro de Dados e Estudos Estratégicos de Damasco. O egípcio Refat Sayed Ahmed, diretor do Centro Yafa de estudos políticos, expressou-se em termos similares, dizendo que, "com a pena de morte imposta a Saddam, o presidente americano, George W. Bush, queria oferecer um presente adequado a este momento, em que sua popularidade está no chão". O colunista jordaniano Yasser Zaatreh classificou o julgamento de Saddam como "uma pantomima de A a Z" e acrescentou que, "se Saddam merece a morte, muitos governantes do terceiro mundo que gozam da bênção de Washington, inclusive George W. Bush e seu grupo de neoconservadores, também a merecem". No Líbano, o jornal Daily Star disse que o processo "deu a palavra às vítimas de Saddam e forneceu às gerações futuras um completo relatório sobre suas atrocidades, mas não tocou no papel desempenhado pelo Ocidente, e especialmente pelos EUA, que tem certa responsabilidade na morte das vítimas de Saddam". Para o jornal, "o Frankenstein de Saddam não é nada se comparado com o atual monstro moderno que é a ocupação: em vez de se transformar em um modelo de democracia e de império da lei, o país se dirige rumo ao caos".

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