Governos de 100 dias,uma praga americana

Como estão em permanente campanha eleitoral, os dois grandes partidos dos EUA não conseguem trabalhar juntos em propostas que tirem o país do buraco

Thomas L.Friedman, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2011 | 00h00

É uma maluquice o que ocorre hoje nos EUA. A condição fiscal continua num rumo insustentável, a moeda europeia está caminhando para um colapso, o mundo árabe está no meio de um colapso, o desemprego aumenta e os dois partidos americanos dizem que não farão as reformas que sabemos que são necessárias porque isso envolveria muito sacrifício e poderia colocar em risco suas chances de vencer a eleição presidencial em 2012.

Desde os legendários "Primeiros 100 Dias" no cargo do presidente Franklin D. Roosevelt - que estabilizaram um país devastado pela Depressão -, os primeiros 100 dias de cada presidente fora usados como uma parâmetro de sucesso. Isso acabou. Já o disse anteriormente e acredito ainda mais hoje: os EUA foram dos primeiros 100 dias para os "Únicos 100 Dias".

De fato - parece que o presidente Barack Obama teve 100 dias para implementar as medidas básicas para estabilizar a economia e depois assentar as bases para sua única grande iniciativa - a reforma do sistema de saúde. Logo em seguida, ele já estava se preparando para as eleições intermediárias, e depois estava se recuperando das suas perdas nas intermediárias, e depois estava anunciando sua candidatura à reeleição, e depois, a julgar por todos os republicanos que já se declararam candidatos à presidência, as corrida de 2012 já começou. Se assim for, as chances de os dois partidos fazerem algo grande, difícil e juntos para resolver os problemas enormes que enfrentamos são muito pequenas - a menos que o mercado ou a Mãe Natureza o imponha.

Nada de realmente ruim pode acontecer até o próximo presidente ter os seus 100 dias no início de 2013, um rápido período para ele consertar o país antes de se preparar para as eleições intermediárias de 2014 e as eleições de 2016.

Não há maneira de os EUA continuaram sendo um grande país se as oportunidades de uma reforma significativa forem reduzidas a crises induzidas pelo clima ou o mercado, e a 100 dias de trabalho a cada quatro anos. O país precisa de um governo em tempo integral. No entanto, o Congresso é uma empresa de levantamento de fundos em tempo integral que ocasionalmente legisla e a Casa Branca que, exceto por 100 dias, precisa estar em clima de campanha.

Para ser eleito, hoje em dia, os políticos precisam jogar cada vez mais para suas bases e prometer coisas que possivelmente não poderão cumprir (5% de crescimento anual em uma década) ou soluções para problemas que serão indolores para seus eleitores (aumentar os impostos para os ricos ou cortar ainda mais os impostos) ou manter as coisas como estão apesar de que elas não podem ficar desse jeito sem falir o país.

Grandeza. É preciso fazer quatro coisas ao mesmo tempo para manter a grandeza americana: mais estímulos para impedir que a economia descambe novamente na recessão. Combinar esses estímulos com um plano crível, legislado, de longo prazo para cortar gastos e colocar o déficit sob controle. Levantar novas receitas para reinvestir nas fontes da força americana: educação, infraestrutura e pesquisa financiada pelo governo para alargar os limites do conhecimento.

É isso. É preciso fazer as quatro coisas ao mesmo tempo: gastar, cortar, taxar e investir. Mas fazer as quatro ao mesmo tempo requererá uma nova política híbrida que se conforme à agenda política de um dos grandes partidos.

Os democratas estão prontos para mais estímulos, mas se recusaram a indicar alguma disposição séria de cortar benefícios. Os republicanos são todos pelo corte de gastos, mas se recusam a aceitar qualquer aumento de impostos necessário para pagar pelo passado e investir no futuro. Assim, a menos que mercado ou Mãe Natureza façam os americanos pagarem, essa conta irá para seus filhos.

Talvez sejam apenas meus amigos, mas encontro cada vez mais pessoas completamente desgostosas com essa situação e pensando num candidato sério de terceiro partido que pudesse concorrer em 2012 e aplicar uma terapia de choque no corrupto e encastelado duopólio bipartidário que atualmente comanda o espetáculo nos EUA.

Um terceiro partido teria uma agenda simples: 1) Injetar estímulos de curto prazo. 2) Sancionar o plano Simpson-Bowles. 3) Reduzir a presença americana no Afeganistão. 4) Elevar os padrões automotivos do consumo de gasolina por veículos 5) Impor um imposto sobre a gasolina para pagar um aumento maciço da pesquisa científica apoiada pelo governo e um imposto sobre o carbono para pagar por nova infraestrutura e estimular a inovação em energia limpa.

Um terceiro partido poderia vencer em 2012? Não é provável. Mas ele não precisa vencer para ser eficaz. Se um partido como esse atrair um número substancial de eleitores com uma plataforma desse gênero, ele moldaria as agendas de republicanos e democratas.

Ambos teriam de agir para atrair esses eleitores mudando suas próprias plataformas e, com isso, poderiam até criar um mandato para o próximo presidente governar durante todo um mandato - e não somente por 100 dias. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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