Governos estão entre maiores compradores

Países tentam reduzir dependência das importações de alimento, mas nova posse de terra é questão política delicada

NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

Não são apenas banqueiros e especuladores, mas também governos, que vêm adquirindo terras em outros países, procurando, assim, reduzir sua dependência do mercado mundial e das importações. A China abriga 20% de toda a população mundial, mas tem somente 9% das terras aráveis do mundo. O Japão é o maior importador de milho do mundo; a Coreia do Sul, o segundo. Os países do Golfo Pérsico importam 60% de todos seus produtos alimentícios, enquanto que suas reservas de água natural são suficientes para sustentar só mais 30 anos de agricultura.Mas o que ocorre num mundo globalizado quando essas colônias surgirem novamente? Por exemplo, se a Arábia Saudita adquirir partes da região do Punjab, no Paquistão, ou investidores russos comprarem metade da Ucrânia? E o que pode suceder quando a fome se abater sobre esses países? Os estrangeiros ricos vão instalar redes elétricas em torno de seus campos e colocar guardas armados escoltando os carregamentos de alimentos que serão levados para fora do país?O Paquistão já anunciou seus planos de mobilizar 10 mil membros das suas forças de segurança para proteger os campos de propriedade estrangeira.Como essa posse moderna de terras transformou-se uma questão política delicada, normalmente é apenas o chefe de Estado do país que sabe dos detalhes. Mas, em alguns casos, governadores de províncias já leiloaram terras para quem ofereceu o melhor lance, como no Laos e no Camboja, onde os governos já nem sabem quanto do seu território ainda possuem.Ninguém conhece exatamente a quantidade de terra que está em jogo. O Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês), fala em 30 milhões de hectares, mas é impossível comprovar. Mesmo as agências da ONU precisam recorrer a artigos de jornais a respeito, enquanto o Banco Mundial tenta convencer os países a prestar mais atenção nas entrelinhas dos acordos que vão assinar. Klaus Deininger, economista da área de política agrária no Banco Mundial, calcula que entre 10% e 30% de terras cultiváveis podem ser disponibilizadas, mas apenas uma fração do total potencial de acordos de venda e arrendamentos foi assinada: "Houve um salto enorme em 2008, quando projetos e as propostas de compra mais do que dobraram em muitos países, e em alguns casos triplicaram." Em Moçambique, diz ele, a demanda estrangeira por terras é maior do que o dobro das terras cultivadas no país, e o governo já alocou quatro milhões de hectares para investidores, metade deles do exterior.ACORDOS ESPETACULARESEntretanto, os acordos mais espetaculares não estão sendo firmados por investidores privados, mas pelos governos e os fundos e conglomerados que eles promovem. A Arábia Saudita é um dos maiores e mais ativos compradores de terras. No segundo trimestre deste ano, o rei saudita participou de uma cerimônia onde recebeu a primeira safra de arroz para exportação, produzida para a Arábia Saudita na Etiópia, onde a população morre de fome. A Arábia Saudita gasta US$ 800 milhões anuais promovendo companhias estrangeiras que cultivam "produtos agrícolas estratégicos", como arroz, trigo, cevada e milho, que ela então importa. Ironicamente, o país foi o sexto maior exportador de trigo do mundo na década de 90. Mas como a água é escassa no país, o rei quer preservar suas reservas. Exportar alimentos significa também exportar água.Mas a terra quase sempre está em uso. Os pobres, em particular, vivem dela, de onde tiram suas frutas e ervas, a madeira para fogo e pasto para o gado. Segundo um estudo conjunto realizado por várias organizações da ONU, a justificativa para as apropriações é que as terras estão "ociosas". E, de acordo com o estudo,essas apropriações podem desalojar um enorme número de pequenos agricultores. Em muitos países pode haver terra arável suficiente para todos, mas a qualidade não é uniforme - e os investidores querem a melhor. Ocorre que, geralmente, ela está sendo usada pelos agricultores locais. Como mais de 50% dos africanos são pequenos agricultores, a aquisição de grandes extensões de terra será um desastre para a população. Quem perde seu campo perde tudo. PEQUENOS AGRICULTORESO fato de os grandes investidores poderem melhorar as colheitas com modernas tecnologias agrícolas não ajudará em nada os africanos que, sem a terra e seu meio de subsistência, não terão dinheiro para comprar alimentos dessas novas produtoras agrícolas.O Banco Mundial e outros estão criando um código de conduta para os investidores. Uma declaração de intenção foi elaborada para ser assinada na cúpula do G-8 em L?Aquila, Itália, em julho. Mas os governantes não concordaram com as normas vinculantes do documento.

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