Amir Makar/AFP
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Há um ressurgimento da vigilância e invasões à privacidade em nome da epidemia, diz historiador

Intelectual egípcio Khaled Fahmy, especialista em epidemias e professor de história da Universidade de Cambridge, diz temer que governos reforcem seu controle de segurança sobre os cidadãos

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 03h30

CAIRO - O intelectual egípcio Khaled Fahmy, professor de História na Universidade de Cambridge e especialista em epidemias, teme que os governos aproveitem a pandemia do novo coronavírus para reforçar seu controle de segurança sobre os cidadãos.

"A forma como os governos vão poder vigiar os atos e gestos de cada um é alarmante", afirma o acadêmico, em uma entrevista à agência France Presse. "O temor é que, uma vez que se concedam esses direitos aos governos, será muito difícil revogá-los", afirmou, baseando-se no exemplo egípcio. 

Há "um ressurgimento da vigilância e graves invasões à privacidade, em nome do controle da epidemia", diz o acadêmico, exilado no Reino Unido desde 2014, devido às suas opiniões críticas.

No país mais populoso do mundo árabe (100 milhões de habitantes), o presidente Abdel Fattah al-Sissi aprovou em maio uma série de emendas à lei sobre o estado de emergência. Defensores dos direitos humanos denunciam as mudanças como um reforço dos "poderes repressivos" em nome da luta contra o coronavírus.

Aumento do controle

Essas emendas permitem ao presidente fechar escolas, suspender o setor público, proibir reuniões públicas, ou privadas, e colocar em quarentena os viajantes que chegarem ao país.

"Se você comparar o que está acontecendo no Egito agora e a epidemia de cólera de 1947, a grande diferença é a mídia e como eles estavam abertos na época, enquanto agora estão fechados em termos de cobertura da epidemia", aponta Fahmy.

Desde o início da pandemia, as autoridades intensificaram sua repressão e prenderam vários jornalistas e militantes. "O que enfrentamos agora é muito mais perigoso", alertou. 

Ele também observa o destino preocupante de cerca de 60 mil presos políticos no país, segundo várias ONGs, cuja saúde é ameaçada por suas condições de detenção em prisões superlotadas em meio a uma pandemia. "Estão detidos injustamente e agora estão em perigo", criticou.

"Do século 14 ao início do século 19, a praga atingiu o Egito mais de 190 vezes. Em média, o Egito foi afetado pela praga uma vez a cada nove anos", conta o historiador.

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"As quarentenas começaram a ser impostas no Egito muito estritamente" após a pandemia de cólera de 1831, iniciada na China antes de se espalhar para o Oriente Médio.

Seu livro All the Pasha's Men (Todos os homens do Paxá, em tradução livre) narra como Mehmet Ali, um obscuro governador otomano, assumiu o Egito no século 19, por meio da criação de um Exército poderoso, envolvido em todos os aspectos da vida pública, incluindo saúde.

Publicado em 1997, obteve muito sucesso e ainda está nas bancadas das livrarias instaladas nas calçadas do Cairo.

O historiador também explica como, hoje, o Exército mantém um papel determinante. O ex-general Al-Sissi, que assumiu o cargo de presidente em 2014, reforçou ainda mais o papel do Exército na vida pública egípcia. 

Unidades militares foram recentemente implantadas para desinfetar ruas e outros espaços públicos. Os militares também venderam equipamentos de proteção médica aos egípcios a preços acessíveis. 

Até o momento, o Egito registrou cerca de 16 mil casos de contágio e mais de 700 mortes. O número de novas infecções está aumentando, com centenas de casos detectados diariamente. 

No plano pessoal, Fahmy afirma viver o confinamento como um exílio reforçado. "Sou um egípcio que não pode voltar para o Egito por várias razões, e o fato de estar em confinamento reforça essa realidade", diz./AFP 

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