'Governos precisam ser firmes com a Venezuela'

Ex-presidentes de países da América Latina criticam falta de posição enérgica diante da crise política e fazem reservas ao governo Maduro

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2014 | 02h01

A posição de governos da América do Sul em relação à crise na Venezuela foi criticada ontem por ex-presidentes latino-americanos, que pedem um posicionamento mais firme contra "as violações" cometidas pelo governo de Nicolás Maduro.

Os protestos antigovernamentais ocorrem desde fevereiro e confrontos entre governistas e opositores deixaram 42 mortos, mais de 800 feridos e 2,5 mil presos. "É escandaloso que não haja uma reação mais forte. Essas novas democracias são autoritárias e as velhas democracias não se pronunciam sobre isso", afirmou o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, durante evento de 10 anos de seu instituto, que discutiu a América Latina.

Para Julio María Sanguinetti, que presidiu o Uruguai de 1985 a 1990 e de 1995 a 2000, a ação da Unasul de enviar chanceleres para acompanhar diálogos entre o governo e a oposição venezuelana é "útil", mas não suficiente.

"Deve haver uma posição mais clara por parte dos governos sobre a democracia e os direitos humanos na Venezuela. A América Latina nunca teve popularmente uma consciência de sua unidade, mas quando morreu (Gabriel) García Márquez, todos sentimos que era um assunto nosso, uma perda nossa. Isso revela que há um sentimento de unidade (entre governos da América Latina) que não é traduzido em ações políticas."

O diálogo entre a oposição e o governo venezuelano começou em 10 de abril e é defendido pelo ex-presidente chileno Ricardo Lagos como uma das medidas políticas para acabar com a crise.

"É essencial ter um diálogo civilizado. Mas existem outros mecanismos como pedir um plebiscito na metade do mandato (de Maduro), como está consagrado no sistema político venezuelano", disse o político ao Estado. Para Lagos, o principal ponto para solucionar a crise é acabar com as ações extremistas dos dois lados. "De um lado, se reprime e não importa o motivo porque não querem que haja protestos, mas em um sistema democrático as pessoas têm o direito de marchar, de se manifestar. Do outro lado, não é apropriado que o propósito das manifestações seja derrubar o presidente eleito. Bem ou mal, houve uma eleição."

O ex-ministro de Relações Exteriores do México Jorge Castañeda estava presente no evento e afirmou que os países latino-americanos precisam se posicionar contra a "repressão" na Venezuela.

"O problema atual, diferente de quando (Hugo) Chávez estava no poder, é que as violações aos direitos humanos são mais graves do que há cinco ou seis anos, basta ver o relatório da Human Rights Watch da semana passada". A ONG divulgou o relatório Punidos por Protestar apresentando 45 casos que envolveram 150 vítimas de abusos das forças policiais e paramilitares cometidos em um período de 60 dias na Venezuela.

Castañeda também atacou a posição de Caracas ao comparar a situação de Maduro à de Salvador Allende no Chile. "Deixou-me indignado. Disseram que o golpe que deram em Allende agora estão dando em Maduro. Ninguém pode acusar Allende de não ter sido democrático e a repressão que Maduro está exercendo hoje na Venezuela, Allende jamais exerceu. Não há um golpe nas ruas contra Maduro como houve contra Allende."

Na quinta-feira, 243 jovens foram detidos em Caracas durante uma operação da polícia para desmontar acampamentos em praças e rua. O governo afirmou que os acampamentos eram ilegais.

Sanguinetti também criticou o governo uruguaio pela liberalização da maconha. "Eu sou contrário ao que se está fazendo hoje porque é uma grande improvisação. Penso que o tema foi tratado com estudos insuficientes". O presidente José Mujica assinou a lei que cria o primeiro mercado de maconha legal do mundo na semana passada.

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