Governos ruins, livros ainda piores

Ditadores como o líbio Muamar Kadafi e o norte-coreano Kim Jong-il aventuram-se como escritores de obras que passam longe da política

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Quando não está à frente de ditaduras na África e na Ásia, a maior parte dos tiranos investe em carreiras paralelas. Políticos como o líbio Muamar Kadafi, o norte-coreano Kim Jong-il e até mesmo o iraquiano Saddam Hussein se aventuraram como escritores.

A produção literária do grupo, porém, ultrapassa a esfera política e ganha formatos mais inusitados. Um dos livros publicados rendeu até mesmo um musical nos palcos.

Apesar de mostrar um lado "mais humano" dos ditadores, a temática dos textos é, na maioria das vezes, menos importante do que o fato de o líder ingressar no ramo literário. Para Erica Frantz, especialista em temas relacionados a governos autoritários, da Universidade da Califórnia, as obras são devaneios dos ditadores e não devem ser levadas a sério.

"Na maior parte das vezes, são contemplações e incoerências. O ato de escrever em si é um claro sinal de que o líder tenta criar um culto à personalidade e aumentar o seu papel na sociedade", afirma a analista.

Conhecido pelo Livro Verde, manifesto escrito na década de 70 para disseminar sua própria ideologia, Kadafi também é o autor de pérolas como Fuga para o inferno e outras histórias, um conjunto de contos nos quais deixa clara a sua aversão pela cidade - o líder líbio vive em tendas no deserto.

A mais excêntrica obra de Kadafi, no entanto, é o conto infantil O astronauta suicida, sobre um homem que se mata ao voltar para a Terra depois de perceber que suas habilidades são sem importância no planeta. Já no livro A Cidade, a paixão do ditador líbio pela vida de beduíno é ainda mais explícita.

No comando da Coreia do Norte há 20 anos, Kim tem mais de 1.500 livros publicados sobre os mais diversos temas, desde o socialismo à música clássica e literatura. Seu assunto predileto, porém, é o cinema.

Outros títulos. Kim chegou a sequestrar o cineasta sul-coreano Shin Sang-ok para produzir filmes comunistas. Em Sobre a Arte do Cinema, o ditador norte-coreano defende o uso da sétima arte para a propaganda e determina a criação de métodos revolucionários para comandar a direção dos longas.

Entre os ditadores mortos que já atuaram como escritores, a variedade é ainda maior. Além de liderar a Revolução Islâmica, no Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini era um poeta dedicado à mística persa e falava de amor.

Josef Stalin, líder da União Soviética por mais de três décadas, foi um poeta georgiano especializado em falar sobre a natureza e os trabalhadores do campo. Apesar de a obra ter sido escrita por "autores fantasmas", Saddam Hussein é responsável pelo histórico romance Zabiba e o Rei.

A versão erótica iraquiana das "mil e uma noites" foi a maior montagem teatral já realizada no país. Saddam continuou escrevendo poemas mesmo depois de sua prisão pelos EUA, em 2003. Seus livros eram populares no Iraque e um deles chegou até a ser traduzido para o japonês.

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