Sajjad HUSSAIN / AFP
Sajjad HUSSAIN / AFP

Governos usaram programa militar para espionar jornalistas e políticos

Segundo consórcio de imprensa, ao menos 37 celulares em 10 países tiveram seus dados expostos por meio do uso do programa de uma empresa israelense destinado a monitorar terroristas e grandes criminosos; ativistas e executivos também foram rastreados

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 19h37

WASHINGTON - O Pegasus, um spyware de uso militar licenciado por uma empresa privada de Israel a governos para rastrear terroristas e criminosos, foi usado em ao menos 10 países para espionar 37 celulares pertencentes a jornalistas, ativistas de direitos humanos e executivos de todo o mundo, de acordo com um investigação realizada pelo jornal americano The Washington Post e um consórcio de imprensa, com parceiros como o britânico The Guardian e o francês Le Monde.

Os telefones espionados aparecem em uma lista de 50 mil números concentrados em países conhecidos por se envolverem na vigilância de seus cidadãos e clientes da empresa israelense Grupo NSO, líder do crescente setor de espionagem por meio de spyware sem regulamentação.

A lista não identifica quem colocou os números ali e a motivação para espioná-los. Também não fica claro quantos dos telefones foram espionados, mas, segundo uma análise forense dos 37 celulares, há uma relação entre o contato com um dos 50 mil números e o início da espionagem.

A lista não identifica os clientes do grupo NSO, mas os relatórios indicam que muitos deles estavam concentrados em 10 países: Azerbaijão, Bahrein, Hungria, Índia, Casaquistão, México, Marrocos, Ruanda, Arábia Saudita e Emirados Árabes.

Segundo o The Guardian, a investigação sugere um “abuso generalizado e contínuo” do programa Pegasus, que, segundo o NSO, tem como objetivo o uso contra criminosos e terroristas. A Anistia Internacional e a Forbidden Stories, organização de mídia sem fins lucrativos com sede em Paris, inicialmente tiveram acesso ao vazamento, e o compartilharam com a imprensa.

Os veículos que tiveram acesso ao vazamento informaram que vão divulgar nos próximos dias detalhes sobre quem foi comprometido. A lista data de 2016 e inclui números de telefone de profissionais de imprensa de veículos de todo o mundo, como AFP, The Wall Street Journal, CNN, The New York Times, Al-Jazeera, France 24, El País, Associated Press, Bloomberg, The Economist, Reuters e Voice of America.

Além disso, duas mulheres próximas ao jornalista assassinado por um esquadrão saudita em 2018 Jamal Khashoggiestão entre os alvos da espionagem.

O uso do programa para hackear telefones dos repórteres da Al-Jazeera e de um jornalista marroquino havia sido relatado anteriormente pelo Citizen Lab, centro de pesquisas da Universidade de Toronto, e pela Anistia Internacional. 

Na lista dos números, está o de um jornalista independente mexicano que foi assassinado posteriormente em um lava-rápido. Seu telefone nunca foi encontrado e não está claro se ele foi hackeado.

Os alvos

Por meio de investigações e entrevistas, repórteres chegaram à identidade de mais de 1 mil contatos espalhados em mais de 50 países: diversos integrantes de famílias reais árabes, ao menos 65 executivos, 85 ativistas de direitos humanos, 189 jornalistas e mais de 600 políticos, como chefes de Estado ou governo, e autoridades governamentais, como ministros, diplomatas e militares.

O laboratório de Segurança que realizou a análise forense dos celulares afirmou ter examinado 67 aparelhos suspeitos de terem sido atacados. Desses, 23 foram espionados com sucesso e 14 mostraram sinais de tentativas de rastreamento. No caso dos outros 30, os testes foram inconclusivos, na maioria dos casos porque o smartphone foi trocado. 

Resposta

O grupo NSO considerou as acusações exageradas e infundadas e não confirmou a identidade de seus clientes, citando sua obrigação de confidencialidade, mas disse que são 60 agências de inteligência ou militares em 40 países.

O grupo se justificou dizendo que não opera o programa para os clientes e não se envolve com as atividades de inteligência de nenhum deles. 

A descrição dos 37 celulares espionados entra em conflito com o propósito de licenciamento do programa Pegasus, que, segundo o grupo NSO, é apenas para a investigação de terroristas e grandes criminosos. As informações desses celulares colocam em dúvida a capacidade da empresa israelense de proteger seus clientes de abusos dos direitos humanos. 

O Grupo NSO já esteve comprometido com a polícia por abusar de seus programas de informática. / W.POST e AFP

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.