Grã-Bretanha e Brasil usaram 'geladeira' para obter informação

CENÁRIO: João Roberto Martins Filho

O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2014 | 02h01

Em 1972, meses depois do escândalo provocado por denúncia de que as forças de segurança britânicas tinham usado na Irlanda do Norte, contra 12 suspeitos de militância no Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em inglês), os mesmos métodos de interrogatório que usavam nas colônias, o psicólogo T. Shallice publicou na revista Cognition estudo detalhado sobre as técnicas de privação sensorial aperfeiçoadas desde os anos 50 pelo Exército britânico.

As chamadas "cinco técnicas do Ulster" incluíam: obrigar os detidos a permanecer em pé contra a parede, com os braços estendidos; uso de capuz todo o tempo, exceto quando interrogado ou quando sozinho na cela; privação de sono; dieta de pão e água; e um ruído contínuo e monótono numa altura calculada para impedir qualquer comunicação. Foram descritas pela primeira vez pelo jornal The Times, em 17 de novembro de 1971.

No estudo, o psicólogo fazia um alerta: as técnicas empregadas num quartel perto de Belfast não foram uma exceção. "Eram parte do padrão da inteligência britânica na medida em que eram ensinadas oralmente no Centro de Inteligência. Assim, parece provável que tais técnicas serão usadas novamente na guerra antiguerrilhas, onde quer que informações estejam em jogo."

O vaticínio acaba de se revelar terrivelmente correto. No relatório divulgado na terça-feira nos EUA sobre o uso de tortura pela CIA, a privação de sono, a exposição dos presos a ruídos intensos e a baixíssimas temperaturas aparecem na lista das técnicas mais brutais empregadas pelos americanos contra suspeitos de terrorismo.

A última dessas técnicas ficou conhecida no Brasil como a "geladeira" e aparentemente foi utilizada antes mesmo de ser empregada no Ulster. Não estava entre as cinco técnicas originárias e só foi mencionada em dois casos adicionais de tortura ocorridos em outubro, nos arredores de Belfast. No Brasil, duas presas políticas - Zenaide Machado de Oliveira e Lucia Alverga - denunciaram ter sido submetidas a instalações do mesmo tipo em agosto de 1971.

A geladeira foi instalada no quartel da Polícia do Exército na Rua Barão de Mesquita, sede do Doi-Codi do I Exército, no começo de 1971, segundo revelou um despacho até há pouco desconhecido, encontrado nos Arquivos Nacionais britânicos, em Richmond, ao sul de Londres. No centro de tortura brasileiro, aplicavam-se as técnicas que os britânicos utilizariam na Irlanda do Norte e seriam retomadas nos interrogatórios chefiados pela CIA no governo Bush.

PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS

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