Grã-Bretanha renuncia ao papel de potência

Governo se tornou provinciano, numa introversão que é uma tragédia para os britânicos e para todo o mundo

FAREED, ZAKARIA, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2015 | 02h02

Na segunda-feira o primeiro-ministro britânico, David Cameron, proferiu seu primeiro grande discurso após a reeleição - como o fizeram outrora William Pitt, William Ewart Gladstone, Benjamin Disraeli, Lloyd George, Winston Churchill e Margaret Thatcher. Diante de um mundo repleto de desafios - desde a possível saída da Grécia da zona do euro, a crise dos imigrantes que chegam às costas da Europa, a perigosa situação da Ucrânia, a persistente intransigência da Rússia, o avanço do Estado Islâmico e o caos atual no Oriente Médio - Cameron preferiu falar sobre seus planos para assegurar que os hospitais do Reino Unido tenham mais funcionários nos fins de semana.

OK, é um pouco injusto. Líderes de todas as regiões, incluindo os Estados Unidos, sabem que toda política é local. Mas ao passar recentemente alguns dias na Grã-Bretanha, o que me surpreendeu foi a que ponto o governo se tornou provinciano. Depois de 300 anos extraordinários, o país basicamente renunciou ao seu papel de potência global.

Nos próximos anos o Exército britânico deve encolher para cerca de 80 mil soldados. Um relatório do Royal United Services Institute prevê que esse número pode chegar a 50 mil. E segundo o The Daily Telegraph essa será a menor força jamais vista desde 1770. David Rothkopf, da revista Foreign Policy, observa que o Exército britânico terá o mesmo tamanho do Departamento de Polícia de Nova York.

De acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, nos últimos cinco anos "a redução de 8% a 9% do orçamento da defesa da Grã-Bretanha provocou uma diminuição entre 20% e 30% da sua capacidade convencional". Não surpreende portanto que o país seja um aliado relutante e de pouco peso nos ataques aéreos contra o Estado Islâmico.

A antiga frota de aviões Tornado, com 30 anos de idade, é de uma geração anterior aos F-22 americanos ao lado dos quais aquelas aeronaves voam. A Marinha Real Britânica, outrora a maior do mundo, hoje opera sem um único porta-aviões (embora dois estejam sendo construídos).

Os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deverão manter os gastos com a defesa em 2% do seu PIB. A Grã-Bretanha hesita e não quis se comprometer a manter seu orçamento nesse nível (É preciso dizer quemuitos outros países europeus relutam ainda mais, o que significa queos Estados Unidos hoje respondem por mais de 70% dos gastos militaresda aliança atlântica). A mesma história se verifica em relação a outros aspectos envolvendo a influência global da Grã-Bretanha. No primeiro mandato de David Cameron, o orçamento do Departamento de Exterior foi reduzido em mais de 25% e novos cortes estão previstos. O World Service da BBC, talvez o mais proeminente braço da diplomacia global do país, encerrou cinco dos seus programas em língua estrangeira.

E isso não aconteceu por acaso. A Grã-Bretanha basicamente criou o mundo em que vivemos. Em seu excelente livro Deus e ouro, Walter Russell Mead sublinha que no século 16 muitos países estavam predestinados a avançar econômica e politicamente: as cidades-Estado do norte da Itália, a Liga Hanseática, os Países Baixos, a França, Espanha. Mas a Grã-Bretanha os superou, tornando-se a primeira grande economia industrializada e a primeira superpotência do mundo moderno.

Colonizou e moldou países e culturas, da Austrália à Índia, África e Hemisfério Ocidental, incluindo naturalmente suas colônias na América do Norte. Tivessem a Espanha ou a Alemanha se tornado a principal potência do mundo, hoje a situação seria muito diferente.

É um paradoxo, imediatamente aparente para os que visitam a Grã-Bretanha, que Londres continue a prosperar como um centro global, cada vez mais cosmopolita e sofisticada. Mais de um terço dos londrinos não nasceu na Grã-Bretanha. E esse governo mostra-se mais do que disposto a viajar pelo mundo demandando investimentos, sejam chineses, russos ou árabes. Essa é uma estratégia excelente para ou um centro de distribuição ou um paraíso fiscal, mas o país não é Luxemburgo. A Grã-Bretanha, ainda hoje, tem o talento, a história e a capacidade para moldar a ordem internacional. É por isso que esta introversão do país é uma tragédia, para eles e para todos nós.

É JORNALISTA E ESCRITOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.