Grã-Bretanha responde à atitude do IRA com cortes militares

A Grã-Bretanha começou hoje a demolir duas de suas instalações militares na Irlanda do Norte como parte de uma série de reduções de gastos anunciada em resposta à histórica decisão do Exército Republicano Irlandês (IRA) de se desarmar. O secretário de Estado britânico para a Irlanda do Norte, John Reid, afirmou que engenheiros e funcionários começaram a demolir torres de vigilância nas montanhas Sturgan e Camlough, no chamado "país bandido" de South Armagh, uma região com muitos seguidores do IRA, na fronteira com a República da Irlanda. Segundo ele, a demolição de outras instalações será iniciada até o final desta semana. "Nosso objetivo é retornar o mais rápido possível aos esquemas normais de segurança", afirmou Reid. O líder do Partido Unionista do Ulster, David Trimble, também anunciou que os três ministros de sua agremiação retornaram hoje a seus postos no governo de coalizão católico-protestante da Irlanda do Norte. Os três haviam se retirado na semana passada em protesto à recusa do IRA em se desarmar. Caso eles não reocupassem seus cargos, a data-limite para que o governo fosse suspenso ou entrasse em colapso seria esta quinta-feira. O próximo e mais contencioso passo para salvar a coalizão deverá ocorrer na próxima semana, quando Trimble, um vencedor do Prêmio Nobel da Paz, deverá anunciar que disputará a reeleição para líder do governo. Ele necessitará dos votos da maioria dos blocos católicos e protestantes na legislatura norte-irlandesa, mas deputados protestantes estão praticamente divididos sobre a possibilidade de sustentar um acordo que inclua o partido Sinn Fein, braço político do IRA. Com sua renúncia em julho último, Trimble ameaçou destruir o governo conjunto a menos que o IRA cumprisse sua promessa de se desarmar. Ao anunciar sua decisão ontem, o IRA afirmou: "Esta decisão sem precedentes foi tomada para salvar o processo de paz e para persuadir a outros sobre a genuinidade de nossas intenções". Em mais um gesto ao grupo católico, Reid anunciou que a Grã-Bretanha e a Irlanda não apoiarão a extradição de membros do IRA por ofensas cometidas antes de 10 de abril de 1998, a data do acordo de paz de Sexta-Feira Santa. Uma comissão internacional criada pelo acordo de paz confirmou que o IRA inutilizou uma grande quantidade de armamentos. Oficiais de segurança estimam que o grupo possua mais de 100 toneladas de armas em esconderijos através da República da Irlanda. Trimble afirmou hoje que o chefe da comissão, o canadense John de Chastelain, lhe assegurou que as armas envolvidas "nunca serão usadas de novo". Em um acontecimento relacionado, dois diplomatas estrangeiros apontados por Londres e Dublin para inspecionar as armas do IRA apresentaram hoje suas renúncias. Martti Ahtisaari, ex-presidente da Finlândia, e Cyril Ramaphosa, ex-líder do Congresso Nacional Africano da África do Sul, visitaram em segredo os esconderijos de armas do IRA por três vezes desde junho de 2000. Notando que o IRA agora está colaborando totalmente, Ahtisaari e Ramaphosa afirmaram que "nós agora temos a satisfação de anunciar que nossa função como inspetores de armas chegou ao fim". Alguns militantes católicos consideraram a atitude do IRA como uma traição e uma entrega. Eles afirmam que muitos membros do IRA irão se reorganizar em torno de uma liderança dissidente comprometida em manter a campanha militar contra o poder britânico, que já causou a morte de cerca de 1.800 pessoas desde 1970. Falando ao Parlamento em Londres, o primeiro-ministro Tony Blair disse que o reino deveria levar a sério tais ameaças. "É claro que existe o risco de um aumento das atividades de grupos republicanos, como o IRA Real, e grupos legalistas (militantes protestantes)", afirmou o premier, acrescentando que isso não deverá intimidar os participantes do processo de paz.

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