Grandes problemas, pequenos líderes 
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Grandes problemas, pequenos líderes 

Atual grupo de líderes é, com algumas exceções, patético e preocupante 

Moisés Naím*, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 04h00

Henry Kissinger acha que o mundo não será o mesmo depois do coronavírus. “Estamos passando por uma mudança de era”, diz o famoso diplomata, para em seguida nos alertar que “o desafio histórico para os líderes de hoje é administrar a crise e construir o futuro”. “Um fracasso nessa tarefa pode incendiar o mundo.”

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que a relação entre as grandes potências nunca foi tão disfuncional como agora e acrescenta que a covid-19 está revelando dramaticamente que ou nós nos unimos e trabalhamos juntos ou seremos derrotados pela pandemia”.

De acordo com Martin Wolf, prestigiado colunista inglês: “Essa é a maior crise que o mundo enfrentou desde a 2.ª Guerra e também é o desastre econômico mais grave desde a depressão da década de 30. O mundo chegou a esta situação em um momento em que há grandes divisões entre as grandes potências e em que o nível de incompetência nos escalões mais altos do governo é assustador”.

Há muito que não sabemos: quando teremos uma vacina? Qual será o impacto do vírus nos países pobres, onde a superlotação é a norma e ficar em casa sem trabalhar é impossível? E se a covid-19 vier em ondas distintas? Mas a pergunta mais preocupante é se aqueles que nos governam darão conta do desafio. Martin Wolf conclui sua análise assim: “Não sabemos como será o futuro. Mas sabemos como devemos tentar moldá-lo. A pergunta é: será que conseguiremos? Tenho muito medo da resposta”.

Falar mal de líderes políticos é normal. Também é normal criticar sua gestão. Mas é preciso ter cuidado com desdém pelos governos. A disputa política faz com que a inaptidão e a corrupção daqueles que nos governam sejam exageradas. Governar, convenhamos, é difícil, e está se tornando cada vez mais difícil. O poder se tornou mais fácil de alcançar, mas também mais difícil de usar e, portanto, mais fácil de perder. 

Às vezes, parece que não há como um líder sair em boa situação depois de administrar um país. Em vez disso, frequentemente vemos líderes honestos e bem-intencionados cujas reputações foram massacradas por seus críticos. E, como sabemos, neste século 21 os ataques políticos são alimentados por redes sociais, bots, trolls e outras ervas daninhas cibernéticas. Portanto, é aconselhável ser cauteloso e prudente ao criticar nossos governantes.

 

Tenho tudo isso em mente ao pensar nos líderes que estão no comando do mundo hoje. Apesar dessa cautela, no entanto, é inevitável concluir que o atual grupo de líderes é realmente, com algumas exceções, patético e preocupante.

Quando a crise financeira global eclodiu em 2008, quem estava no comando do Grupo dos 20 (G-20) era Gordon Brown, então primeiro-ministro britânico. Este ano, o posto de liderança do G-20 caberia ao rei da Arábia Saudita que, em decorrência de sua idade avançada e problemas de saúde, delega o papel a seu filho, Mohammed bin Salman. Sim, esse mesmo. Aquele que mandou esquartejar um jornalista que o criticou. Esse é o líder que deve reunir, mobilizar e coordenar a comunidade internacional para enfrentar o coronavírus e suas consequências econômicas.

Nos EUA, o Conselho Nacional de Economia é a principal fonte de ideias e políticas econômicas do presidente. Desde a sua criação, em 1993, esse órgão já foi liderado por alguns dos economistas americanos de mais prestígio. Donald Trump nomeou para o cargo Lawrence Kudlow, cujo feito mais expressivo no currículo foi ser comentarista financeiro da televisão. Esse não é um caso isolado. O governo Trump não se distingue pela capacidade e experiência de seus mais altos funcionários.

Na Europa, as perspectivas de confiança inspiradas pelos líderes que estão no poder hoje também não são muito animadoras. Uma das coisas que precisamos dos governantes hoje em dia é que tenham bom senso. Quanta segurança em relação ao futuro trazem as ações e a capacidade de julgamento demonstradas até agora por Boris Johnson, Víktor Orbán, Pedro Sánchez, Pablo Iglesias, Matteo Salvini e Luigi di Maio? No mundo em desenvolvimento, Jair Bolsonaro, Andrés Manuel López Obrador e Daniel Ortega estão no noticiário por terem negado a pandemia, o presidente filipino, Rodrigo Duterte, por ter ameaçado matar aqueles que não respeitarem a quarentena, e Narendra Modi por usar o pretexto do vírus para aprofundar a discriminação contra muçulmanos na Índia.

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Não quero romantizar o passado, nem sugerir que os líderes anteriores sempre foram melhores. Houve de tudo. Tivemos Hitler e Churchill, Mao e Mandela. Mas não há dúvida que essa pandemia surpreendeu o mundo em um momento de grande fraqueza institucional.

As crises fecham muitas portas, mas também abrem outras. Essa crise terá muitas consequências inesperadas. Talvez uma delas seja uma forte reação contra os pequenos governantes e a chegada de líderes que enfrentem os grandes problemas que temos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT

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