Louisa Gouliamaki/AFP
Louisa Gouliamaki/AFP

Grécia torna-se exemplo de combate ao coronavírus

País enfrentou crise financeira, corrupção e instabilidade política nos últimos anos; agora comemora resposta de seu governo à pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 19h52

TESSALÔNICA, Grécia - Nos últimos anos, a Grécia vem sendo vista como um dos membros mais problemáticos da União Europeia, esmagada debaixo de crise financeira, corrupção e instabilidade política. Mas, na pandemia de coronavírus, o país surgiu como uma bem-vinda surpresa: seu surto parece estar muito mais contido do que o esperado.

À medida que o vírus se espalhava pela Europa, muitos gregos temiam o pior: seriam a próxima Itália ou Espanha.

Afinal, o sistema de saúde do país fora enfraquecido por uma crise financeira que durou mais de uma década. E a Grécia tem uma das populações mais idosas da União Europeia, perdendo apenas para a Itália, o que a deixaria mais vulnerável à doença.

Mas o número de mortes registradas e de pessoas em terapia intensiva por causa do vírus na Grécia continuou sendo apenas uma pequena fração dos números de muitos outros países europeus.

Agora, o país que se acostumou a ser visto como uma criança problemática na União Europeia, está comemorando a resposta de seu governo à pandemia e vivendo a expectativa de reabrir a economia.

“A Grécia contrariou as probabilidades”, disse Kevin Featherstone, diretor do Observatório Helênico da London School of Economics.

Como a Grécia testou uma porcentagem muito pequena da população, é impossível saber até que ponto o vírus se espalhou pelo país. Mas o total de mortes foi baixo - 138 em uma população de cerca de 10,7 milhões. Uma surpresa para os especialistas, sobretudo quando se considera a alta idade média da população. E um grande alívio.

Na terça-feira, pouco mais de um mês depois do governo impor o isolamento, o primeiro-ministro anunciou um prazo para diminuir gradualmente as restrições e retomar a normalidade no país.

Apenas 69.833 pessoas fizeram teste para o novo coronavírus na Grécia, mas os especialistas concordam que a decisão de impor rapidamente medidas de distanciamento social e fortalecer o combalido sistema de saúde do país ajudou a conter o surto.

Também foi determinante a disposição da maioria dos gregos para cumprir as ordens.

Em 27 de fevereiro, um dia após a confirmação do primeiro caso de covid-19 no país, em Tessalônica, a segunda maior cidade da Grécia, o governo cancelou o carnaval. Em 11 de março, fechou as escolas. Dois dias depois, a Grécia limitou as viagens não essenciais e fechou cafés, restaurantes, bibliotecas e museus, entre outros lugares.

Qualquer pessoa que viesse do exterior tinha de passar por uma quarentena obrigatória de duas semanas ou pagar uma multa de cerca de US$ 5.400. Todos no país eram obrigados a notificar o governo toda vez que saíam de casa, mesmo que fosse passear com o cachorro.

“Agimos preventivamente”, disse Giorgos Gerapetritis, ministro de Estado grego.

“Com consciência, preferimos fazer um sacrifício financeiro significativo a sacrificar vidas humanas”, disse ele.

Até esta semana, foram relatadas 2.566 infecções por coronavírus na Grécia. Em comparação, a Bélgica, que tem um tamanho populacional semelhante, registrou 47.334 infecções e 7.331 mortes.

Desde fevereiro, a Grécia trabalhou para aumentar rapidamente seus leitos de terapia intensiva em mais de 70% e recrutou 3.337 profissionais de saúde adicionais, disse Vassilis Kikilias, ministro da Saúde. O país também abriu 2.500 vagas para trabalhadores hospitalares e planeja contratar mais 942 médicos, disse um porta-voz do Ministério da Saúde na semana passada.

“A mobilização foi muito rápida”, disse Anastasia Kotanidou, professora do Departamento de Cuidados Intensivos da Universidade de Atenas e presidente da Sociedade Grega de Terapia Intensiva. Sem essa mobilização, disse ela, o sistema de saúde não seria capaz de lidar com o surto.

Em todo o país, muitos gregos rapidamente se dispuseram a aceitar o novo normal, abrindo mão até mesmo de coisas tradicionais, como reunir a família para assar cordeiro na Páscoa ortodoxa, o que seria impensável alguns meses atrás.

Uma pesquisa recente revelou que hoje as duas pessoas mais populares do país são Sotiris Tsiodras, o infectologista de fala mansa da Universidade de Atenas, e Nicholas Hardalias, vice-ministro da Proteção Civil. O médico e o político realizam briefings diários sobre a situação do vírus na Grécia, um programa líder de audiência na TV do país.

Featherstone disse que o fato de o governo “seguir a ciência”, transformando Tsiodras em uma liderança política e conferindo a Hardalias o poder de supervisionar a resposta do país ao surto, ajudou a garantir que as coisas se desenrolassem sem maiores problemas.

“Essas ações não eram comuns nos governos gregos que se confrontaram com desafios”, disse ele. As medidas pareciam refletir o histórico profissional do primeiro-ministro Kiriakos Mitsotakis, ex-analista financeiro, acrescentou ele.

Pavlos Eleftheriadis, diretor de teatro aposentado que vive no norte da Grécia, disse estar positivamente surpreso com a resposta do governo ao surto.

“Senti orgulho da presença do estado”, disse Eleftheriadis. “Temos políticos que ouvem os cientistas”.

Mas, apesar de todos seus sucessos até agora, o governo também enfrentou algumas críticas.

Menos de 1% da população foi testada para o vírus na Grécia, suscitando preocupações sobre a precisão de seus números. Os testes se concentraram em pacientes com sintomas internados nos hospitais e em pessoas que tiveram contato com casos confirmados, segundo o porta-voz do Ministério da Saúde. As pessoas que chegam ao país do exterior também estão sendo testadas.

Também houve vários surtos de coronavírus nos insalubres e lotados campos de refugiados do país. E, apesar dos apelos para evacuá-los, poucos migrantes foram liberados, despertando a indignação dos críticos.

Em um hotel que está sendo utilizado para abrigar centenas de migrantes, pelo menos 150 pessoas testaram positivo para o vírus este mês. Os migrantes fizeram testes somente depois que uma funcionária do hotel, seu marido e uma migrante grávida da Somália receberam resultados positivos, reportou a imprensa local.

Algumas pessoas expressaram preocupações sobre denúncias de comportamento abusivo por parte dos policiais que aplicam as regras de isolamento no país, incluindo o uso de força excessiva.

Na terça-feira, Mitsotakis anunciou que, a partir de 4 de maio, livrarias, salões de beleza e algumas outras lojas poderão reabrir as portas e que os gregos não precisarão mais notificar o governo antes de sair de casa.

As igrejas também reabrirão, mas não para cultos e cerimônias coletivas. As escolas secundárias retomarão as atividades no final de maio. Restaurantes e hotéis que operam o ano todo provavelmente voltarão a funcionar em 1º de junho, disse Mitsotakis. / NYT, TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

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