Orestis Panagiotou/EFE/EPA
Orestis Panagiotou/EFE/EPA

Grécia volta a culpar migrantes por incêndio em campo de Moria

Maior acampamento de refugiados do país foi totalmente destruído pelas chamas, deixando 12 mil desabrigados

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 18h52

ILHA DE LESBOS, GRÉCIA - O governo grego voltou a acusar nesta segunda-feira, 14, os migrantes de terem incendiado o campo de Moria na ilha de Lesbos, onde centenas de desabrigados agora estão em um centro temporário, "sem chuveiros ou colchões", apesar de algumas exceções, segundo testemunhos obtidos pela Agência France Press.

"O campo (de Moria) foi queimado por refugiados e migrantes que buscavam chantagear o governo para que os transferisse rapidamente da ilha" para o continente, disse Stelios Petsas, porta-voz do governo grego em uma entrevista coletiva em Atenas. 

Na madrugada de 9 de setembro, o grande campo de Moria, o maior da Europa, erguido há cinco anos no auge da crise migratória, foi totalmente destruído pelas chamas, deixando seus 12 mil ocupantes em condições insalubres. 

Enquanto continua a investigação sobre a origem do incidente, em Lesbos milhares de solicitantes de asilo, exaustos e famintos, sobrevivem sem abrigo ou proteção.

Muitos migrantes, que ficaram em Moria por meses e até anos, se recusam a ir para as novas instalações erguidas às pressas pelas autoridades. 

"Não tenho outra escolha", conta Pariba, uma mulher afegã que chegou a entregar seus documentos depois de dez meses em Moria. Com suas tendas brancas, o novo acampamento de refugiados "parece complicado, com o sol batendo direto e sem sombra, mas vou amanhã porque não tenho outra opção". 

Dentro do novo local, fechado à imprensa, Malik, um migrante argelino, conta por telefone à Agência France Press sobre as condições de vida com sua mulher e cinco filhos, que juntos foram umas das primeiras famílias a se instalar nas tendas cedidas pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no sábado 12.

"Está muito quente", suspira o professor de francês. "Não há nada no campo, nem chuveiros, nem colchões. Só fazemos uma refeição por dia e eles nos dão uma caixa com seis garrafas de água", acrescenta. 

"Se formos, morreremos"

"Se formos para lá, morreremos", ressalta Ahmed, um somali de 18 anos, enquanto mostra a estrada onde milhares de migrantes se aglomeram, em abrigos precários. "Se formos para lá, morreremos", repete, desta vez apontando para uma cidade vizinha. 

E com a mão, ele simula uma decapitação, em referência à hostilidade dos moradores locais. "Queremos ficar seguros", explica seu colega Mohamed. "Não importa onde, mas seguros", ressalta o jovem, que teme não poder entrar no campo porque "é só para famílias".

"Em cinco dias, a operação terá sido concluída. Todos estarão instalados no novo campo", declarou o ministro grego da Migração, Notis Mitarachi, no útltimo fim de semana, ao visitar Lesbos por dois dias para coordenar o trabalho do novo centro. 

"Falta comida e água na rua, mas nos sentimos seguros, há alguns senegaleses que tentam nos ajudar", conta o somali Ziko, de 25 anos, que escolheu dormir no pátio de uma empresa próxima ao campo de Moria com um grupo de 200 pessoas. 

Entre os solicitantes de asilo, podem haver casos de covid-19. Segundo o ministro Mitarachi, cerca de "200 pessoas" podem estar contaminadas.

Em Panagiuda, perto do novo campo, que tem previsão para receber 3 mil pessoas, os moradores protestam contra a decisão do governo.  "Esperamos que não façam um novo Moira", disse Theodoros Mineskos, de 58 anos.

"Onde vão colocar estas pessoas? A comunidade local é contra esta solução e o governo sabe", afirmou o prefeito de Mitilene, Stratis Kytelis. "Felizmente acabou a vergonha do campo de Moria", declarou à Agência France Press. "Mas a tensão e a angústia continuam com todas estas pessoas nas ruas".

A "selva"

O campo de Moria tem o apelido de "selva", assim como o campo de Calais, na França, e tornou-se "uma vergonha para toda Europa", segundo ONGs.

Aberto em 2013 em uma instalação militar, inicialmente serviria como centro administrativo de registro para algumas centenas de migrantes que lá faziam uma escala em seu trajeto até o norte da Europa.

Dois anos mais tarde, como consequência da guerra na Síria, Lesbos e seus 85 mil habitantes receberam um fluxo de mais de 450 mil solicitantes de abrigo em apenas um ano.Por trás de suas enormes barreiras de arame farpado, Moria era o único acampamento disponível na ilha.

O acordo entre União Europeia e Turquia, assinado em março de 2016 para impedir a chegada de sírios procedentes da Turquia, mudaria as regras do jogo. Mas os migrantes continuaram chegando à ilha grega próxima do litoral turco. O campo, onde as condições sanitárias são lamentáveis, estendeu-se aos terrenos vizinhos.

Em 2020, a megaestrutura de Moria se tornou, segundo várias ONGs, uma "vergonha para toda Europa": prostituição, casos de estupro, sequestro de menores, tráfico de drogas e todo tipo de violência agora fazem parte do cotidiano dos refugiados. Alguns se suicidam, outros são queimados dentro de suas barracas. Entre janeiro e agosto, cinco pessoas foram esfaqueadas em mais de 15 ataques.

Lesbos, a ilha da solidariedade em 2015, onde os pescadores prestavam auxílio aos barcos à deriva transbordados de migrantes, e onde as avós, candidatas ao prêmio Nobel da Paz, davam mamadeira aos bebês migrantes e eram elogiadas até pelo papa - parece agora apenas uma lembrança distante.

Desesperados ao se verem afetados pelas decisões da política migratória europeia, os moradores da ilha, que se consideram arruinados e em perigo, impedem frequentemente o desembarque de migrantes. Assistentes sociais também acabaram se tornando alvos da violência. /AFP

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