Greve de fome cresce em Guantánamo, afirmam advogados

Pentágono admite que 38 dos 166 presos aderiram ao protesto, mas representantes de defesa dizem que situação é pior

CHARLIE SAVAGE, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h06

Uma greve de fome entre os detidos sem julgamento - alguns há mais de dez anos - na prisão americana de Guantánamo, em Cuba, continua a ganhar força. Mas militares e advogados de defesa discordam sobre quantos prisioneiros exatamente estão participando do protesto.

Na segunda-feira, 28 dos 166 presos vinham continuamente recusando refeições e mais 10 estavam sendo alimentados à força, segundo um porta-voz militar, capitão Robert Durand. Na sexta-feira, ainda de acordo com o Pentágono, a greve de fome era feita por 26 detentos. Durand acrescentou que três presos tinham sido hospitalizados com quadro de desidratação.

No entanto, advogados de presos - com base em registros de conversas com seus clientes - afirmam que os números dos militares estão significativamente aquém do nível real de participação no protesto. Os presos lhes disseram que uma maioria esmagadora dos presos nos Campos 5 e 6 - onde ficam suspeitos considerados de baixa periculosidade, que não estão enfrentando acusações numa comissão militar - rejeitou comer por semanas, eles disseram.

Ramzi Kassem, professor de Direito da City University, de Nova York, e advogado de vários presos em Guantánamo, disse ter conversado por telefone na sexta-feira com dois clientes que estão participando da greve. Segundo ele, os dois haviam perdido cerca de 15 quilos. Eles disseram que, à exceção de alguns prisioneiros idosos, "ninguém está aceitando comida". E acrescentou: "Os prisioneiros não estão comendo nada, sobrevivendo apenas com água. Os suprimentos que porventura foram deixados nos blocos de celas e com prisioneiros já acabaram".

Os militares disseram usar critérios do Departamento de Prisões, segundo os quais um preso precisa recusar qualquer alimento por mais de três dias seguidos para ser considerado "em greve de fome". Durand afirmou que alguns presos do campo comunitário que estão recusando suas refeições foram vistos comendo algum alimento fornecido por outros ou de estoques.

Ato impuro. As razões para a greve tampouco estão claras. Os advogados de presos dizem que seus clientes citam as buscas sistemáticas nas celas por guardas, no começo de fevereiro, que incluíram uma inspeção em livros islâmicos em busca de contrabando. Alguns advogados disseram que, segundo relatos de seus clientes, guardas tocaram em exemplares do Alcorão, o que eles consideram uma blasfêmia religiosa.

Os militares dizem que essas alegações são falsas e um intérprete muçulmano folheou os livros enquanto guardas observavam, seguindo um procedimento antigo. O advogado Carlos Warner, que visitou na semana passada seu cliente Faiz Mohammed Ahmed al-Kandari, um preso kuwaitiano, divulgou anotações descrevendo Kandari como "esquálido" e "debilitado demais para ficar em pé". Segundo ele, "todos os homens estão em greve" e recusaram os remédios prescritos, exceto dois presos idosos no Campo 6.

Mas Durand disse que as práticas de busca não mudaram e a greve era "um evento orquestrado para chamar a atenção da mídia". O porta-voz militar afirmou também que a oferta dos presos de abrir mão de exemplares do Alcorão não era uma solução real para a crise.

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