Greve de jornalistas ganha apoio inesperado na China

Centenas de pessoas manifestaram repúdio à censura de autoridades locais contra o jornal 'Southern Weekend'

GUANGZHOU, CHINA, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2013 | 02h04

Centenas de pessoas reuniram-se ontem diante da sede do jornal Southern Weekend, na cidade chinesa de Guangzhou, em uma inesperada manifestação a favor de uma raríssima greve de jornalistas contra a censura exercida pelo governo local. O movimento recebeu apoio pela internet de outros jornalistas, de várias celebridades e de comentaristas políticos chineses.

"Aguardando a primavera neste inverno duro", postou a atriz Li Bingbing, que tem 19 milhões de seguidores em sua conta no microblog Weibo. Yao Chen, também atriz, postou para seus 31 milhões de seguidores uma citação do russo Alexander Soljenitsyn, Prêmio Nobel de Literatura: "Uma palavra de verdade pesa mais do que o mundo inteiro".

O protesto em Guangzhou, capital da Província de Cantão, é parte de uma crescente mobilização popular pela liberdade de imprensa e também um teste para o recente compromisso do novo dirigente chinês, Xi Jinping, com relação às reformas na China.

Os protestos começaram no fim de semana, quando repórteres do Southern Weekend, um influente jornal de caráter liberal da cidade, acusaram censores de alterar uma mensagem de ano-novo aos leitores, em que a defesa de um governo constitucional no país foi substituída por palavras de louvor ao Partido Comunista da China.

A polícia autorizou a manifestação em frente à sede do Grupo Nanfang, que edita o jornal, em um claro sinal de que o governo provincial, comandado pelo recém-nomeado Hu Chunhua, estrela em ascensão na política chinesa, deseja agir de forma cautelosa diante da indignação popular contra a censura.

Os manifestantes, a maioria jovens, deixaram no local pequenos cartazes dizendo que "liberdade de expressão não é crime". Muitos levavam crisântemos brancos e amarelos, flor que simboliza o luto - no caso, pela liberdade de imprensa.

Demissão. Os jornalistas exigem a demissão de Tuo Zhen, chefe da agência de propaganda de Cantão, acusado de exagerar no controle sobre a imprensa local. "O Grupo Nanfang está relativamente disposto a dizer a verdade na China. Então, precisamos nos posicionar a favor de sua coragem e apoiá-la agora", disse Ao Jiayang, que trabalha para uma ONG que defende a liberdade de expressão.

A atenção dada ao protesto internamente reflete também a posição única de Cantão, a mais rica e liberal província da China e berço do programa de "reforma e abertura". Em uma medida simbólica, Xi escolheu Cantão como destino de sua primeira viagem depois de ser consagrado dirigente máximo do Partido Comunista Chinês, em novembro. / REUTERS e NYT

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