Greve deixa Uruguai sem casamentos

Funcionários de cartórios exigem 26% de aumento e há dois meses não marcam cerimônias, que devem ser suspensas semana que vem

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2014 | 02h03

A eleição presidencial uruguaia de domingo afetou indiretamente o plano de uma subcategoria de eleitores, a dos noivos. Há dois meses, funcionários dos cartórios decidiram que só voltarão a receber inscrições para casamentos quando ganharem 26% de aumento. Ontem, alguns dos últimos casais a conseguir reservar uma data formalizaram a união.

"Um porta-voz do presidente José Mujica nos disse que estamos estimulando o concubinato e, como eles são contra o casamento, a negociação ficaria assim. Mas nosso pedido é sério. Em uma semana, não haverá mais casamentos no país", disse ao Estado Eduardo Murias, presidente da Associação dos Funcionários do Registro Civil (Afureci).

Entre os grupos que aproveitaram ontem a proximidade da votação para fazer pressão contra Mujica, provavelmente essa categoria foi a mais original. Ao meio-dia, uma caminhonete vermelha estacionou diante da sede do Ministério da Economia. Notários descarregaram uma mesa e a bandeira do Uruguai. Ali, sob chuva de arroz, fizeram alguns dos últimos casamentos do país, com reações opostas dos casais, avisados na véspera das novas condições.

"Não gostei muito. Tenho parentes que vieram do interior. Uma das testemunhas se atrasou, pois nosso horário, marcado desde agosto, era 14 horas", disse Sonia Rodríguez, com o buquê na mão, ao lado do noivo, Gabriel Pino.

Nicolás Rodríguez e Stephanie Sauer, ambos de 28 anos, foram os últimos a se casar sob as árvores da Rua Colonia, onde fica o ministério. "Quando começou a paralisação sabíamos que haveria alguma mudança. E até gostamos, porque foi possível ajudar trabalhadores como nós", disse Nicolás, que sacudia a calça e sorria ao ver arroz saindo pela barra. Stephanie concordou e acrescentou: "Acho que será ainda mais difícil de esquecer".

Segundo o presidente da Afureci, a categoria recorreu à "boda-protesto" em razão da pouca repercussão das manifestações tradicionais. "Vimos que greves e marchas já não causam efeito. Continuamos com elas, mas precisamos inovar", explicou Murias. A medida atinge diretamente as cerimônias religiosas, já que a lei uruguaia proíbe o matrimônio religioso sem que a união esteja certificada pelo registro civil. Embora os cartórios ligados à Afureci atuem só em Montevidéu, região metropolitana e no litoral, o serviço no restante do país, a cargo de juizados de paz, depende do selo que deixou de ser vendido pela associação. "Temos os selos, mas não repassaremos. Por isso, temos tanta certeza que todo o país ficará sem casamentos", disse Murias.

Na queda de braço, os cartórios têm prejuízo com a própria medida. Um casamento no escritório custa aos noivos 260 pesos (R$ 27). Fora do cartório, o preço sobe para 12.000 pesos (R$ 1.274). Os casados ontem pagaram a menor quantia, já que não escolheram a cerimônia ao ar livre.

Por volta das 14 horas, quando a carroceria da caminhonete foi reaberta para colocar a mesa e a bandeira coberta de arroz, a rua do centro da capital uruguaia ainda estava fechada e os noivos recebiam abraços.

Uma das mais felizes era Diana, que saiu da Província de Salto, norte do país, para o primeiro casamento em Montevidéu. "Será uma lembrança muito bonita, mais ainda por ter sido na rua. A verdade é que foi muito diferente", disse sorrindo, logo após agarrar o buquê de cinco rosas lançado por Stephanie.

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