Greve faz subir tensão eleitoral no Chile

Às vésperas da votação, ex-presidente Michelle Bachelet segue como favorita

Rodrigo Cavalheiro, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2013 | 02h04

SANTIAGO - No organizado centro de Santiago, a civilidade dos pedestres que esperam minutos o semáforo ficar verde para cruzar a rua, sem que haja um carro no horizonte, destoa dos montes de lixo que se acumulam a cada duas ou três quadras.

Há 22 dias, funcionários públicos municipais encarregados da limpeza deixaram de trabalhar, na esperança de garantir um reajuste salarial antes da eleição de domingo. A eles, ontem se uniu o maior sindicato de servidores do país, com 70 mil afiliados, a Associação Nacional de Empregados Fiscais (Anef), que abarca os servidores da administração direta.

Às vésperas de uma eleição que tende a devolver o poder no Chile à ex-presidente Michelle Bachelet, da coligação Nova Maioria, os grupos de defesa dos direitos dos trabalhadores parecem ser os mais envolvidos em uma disputa que esfriou em razão da distância nas pesquisas entre a favorita socialista e Evelyn Matthei, candidata governista, representante do Partido da União Democrática.

"Valemos mais antes da eleição do que depois dela. Por isso pressionamos o governo a fazer uma proposta antes da votação. Eles têm o raciocínio contrário, pois ficaria muito ruim para eles rebater a nossa oferta com um porcentual ofensivo a dias da eleição", disse ao Estado o presidente da Anef, Raúl de la Puente Peña. Ele admite que a estrutura do Estado chileno é pequena comparada a dos vizinhos sul-americanos (são 600 mil servidores no total, contando militares), mas garante que eles conseguem "fazer barulho".

"Juntando as famílias dos funcionários, representamos uns 2 milhões de votos e cuidamos de serviços essenciais, registros civis, limpeza, saúde. O governo não pode desprezar nossa capacidade de pressão", disse.

Os sindicatos chilenos pedem um reajuste de 8,8%, diante de uma inflação de 2%. Nos bastidores, admitem que não conseguirão o índice pedido antes da votação. Mas não parecem preocupados em preservar o governo de Sebastián Piñera, vista como a de um empresário que demitiu 11 mil servidores em três anos. "Mesmo que dessem o reajuste, continuariam marchando contra Piñera", diz um membro da Anef.

Outra razão para a cautela do governo são as contas. A previsão do PIB para 2014, que chegou a ser de 4,9%, era ontem de 4,2%. Isso afetaria a previsão de orçamento, sem a qual, segundo o subsecretário da Fazenda, Julio Dittborn, não é possível fazer uma contraproposta.

Ontem, as montanhas de lixo se acumulavam nas proximidades do Palácio de La Moneda, que terá novo ocupante em 2014 - o Chile não permite reeleição, um dos pontos que Bachelet pretende mudar na Carta caso seja eleita. Juan Manual Hernández coordenava uma equipe de limpeza privada, contratada emergencialmente para suprir a falta de coleta, decorrência da paralisação no serviço público. Ele gritava aos funcionários para se apressar e partir logo para outro monte.

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