Greve geral de 24 horas paralisa a Argentina

Protesto contra a política econômica do governo Kirchner afeta principais cidades

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 02h07

A presidente Cristina Kirchner enfrentou ontem a primeira greve geral de seu governo e de toda a "era kirchnerista" (desde que seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, tomou posse em 2003). Os líderes da paralisação foram as alas "rebeldes" da Confederação-Geral do Trabalho (CGT) e da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), cujos sindicatos paralisaram suas atividades por 24 horas.

"Este governo não é nacional e muito menos popular", afirmou Hugo Moyano, caminhoneiro que lidera a CGT que está em confronto aberto contra Cristina. Moyano celebrou o "sucesso" da paralisação e afirmou que "a voz que o governo deveria ouvir é o silêncio das ruas". O caminhoneiro acusou na sequência: "Cristina esnoba os trabalhadores".

A greve - em protesto contra a política econômica do governo Kirchner - teve grande impacto nas cidades de Córdoba, Mendoza, Santa Fé e La Plata.

Esta foi a primeira vez que a CGT e a CTA realizaram em conjunto uma greve geral. A jornada também marcou a inédita aliança circunstancial dos sindicalistas de um setor ruralista, a Federação Agrária, que foi uma das quatro associações ruralistas que realizaram os locautes contra Cristina em 2008. Os líderes sindicais e ruralistas afirmam que estão analisando a implementação de um "plano de luta conjunto".

Os sindicalistas paralisaram a maior parte do sistema de trens, ônibus de transporte urbano e metrô. No entanto, para compensar a falta de adesão total nos transportes, os sindicatos - especialmente o dos caminhoneiros - fizeram piquetes nas principais avenidas portenhas, além de bloquear a maioria dos acessos viários à capital.

As escolas também aderiram à greve, bem como os trabalhadores bancários e o funcionalismo público. A coleta de lixo ficou paralisada.

Os voos internos da Aerolíneas Argentinas, Austral e Lan foram cancelados. As conexões internacionais continuaram funcionando, embora com atrasos consideravelmente maiores que os dos dias normais no aeroporto de Ezeiza.

Os sindicalistas - que acusam a presidente de ter traído a política econômica "nacional e popular" do marido e antecessor, Nestor Kirchner, e os ideais peronistas - exigem aumentos salariais superiores a 25% (em alguns casos, de até 30%).

Os sindicatos afirmam que só dessa forma poderão compensar as perdas de poder aquisitivo causadas pela inflação. No entanto, o governo Kirchner sustenta que não existe uma escalada inflacionária e afirma que a inflação do ano passado foi de apenas 8,9%. Na contramão, economistas, associações de defesa dos consumidores e sindicatos afirmam que foi superior a 25%.

Os analistas indicam que mais além do impacto da paralisação, esta greve tem o valor simbólico de ser a primeira realizada por peronistas contra a também peronista Cristina. Kirchner nunca foi alvo de uma greve geral, já que os sindicatos estavam do seu lado. O também peronista Carlos Menem (1989-99) passou incólume em seu primeiro mandato. Mas, em seu segundo governo, embalado pela recessão e o aumento do desemprego, Menem enfrentou várias greves.

O governo de Cristina optou por minimizar o impacto da greve. O chefe do gabinete de ministros, Juan Abal Medina, afirmou categórico em tom depreciativo: "não é uma greve. É apenas um grande 'piquetaço' nacional". Outros integrantes do governo acusaram os sindicalistas peronistas de tentar "desestabilizar" o governo, além de defini-los como "golpistas". A Confederação-Geral do Trabalho (CGT) foi, ao longo das últimas sete décadas o suporte sindical dos governos peronistas de plantão. No entanto, a CGT está atualmente fraturada em três partes, das quais duas são antikirchneristas.

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