JUAN MABROMATA/AFP
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Greve geral paralisa Argentina e é desafio para governo Macri

Manifestantes protestam contra medidas econômicas adotadas pelo presidente; voos foram afetados

O Estado de S.Paulo

06 Abril 2017 | 11h49

BUENOS AIRES - Argentinos em protesto contra medidas de austeridade do governo e exigindo aumentos salariais paralisaram o país nesta quinta-feira, 6, em um desafio ao presidente Mauricio Macri na primeira greve geral convocada por sindicatos trabalhistas desde sua posse, em 2015.

Motoristas de caminhões e ônibus, professores, operários, funcionários de aeroportos e agentes alfandegários que controlam o setor crucial de exportação de grãos abandonaram o trabalho por 24 horas a partir da meia-noite. A greve também afetou o setor aéreo: não há voos nacionais ou internacionais.  Pela primeira vez nenhum voo internacional chegará ao país em 24 horas, informaram os sindicatos do setor.

As forças de segurança e manifestantes que haviam bloqueado a Rodovia Pan-Americana, a principal estrada que leva do norte para a capital Buenos Aires, entraram em confronto. Os locais onde as ruas normalmente são movimentadas estavam semi-vazias e os pontos comerciais, fechados.

"É uma medida extrema que custa bilhões de dólares ao país", disse a vice-presidente Gabriela Michetti ao canal de notícias TN minutos antes do início da greve, à meia-noite desta quinta-feira.

Manifestantes empunharam cartazes e gritaram em protestos realizados em todo o país. "Não há agentes alfandegários aqui, então não vai haver exportação nem importação hoje", disse Guillermo Wade, gerente da câmara marítima do principal polo de grãos argentino, em Rosário. O país é o maior exportador mundial de ração de soja para animais de criação e o terceiro maior fornecedor de grãos de soja.

"Há um mal-estar enorme porque a política econômica não deu resultados" com seu modelo liberal de maior abertura às importações e flexibilidade trabalhista, declarou Juan Carlos Schmid, secretário-geral da influente Confederação Geral do Trabalho (CGT), controlada pelo opositor peronismo. Segundo Schmid, nos 16 meses de Macri no poder "se destruiu mais emprego que se criou e o custo recaiu sobre os assalariados e os setores vulneráveis", disse ao canal TN.

Macri, defensor do livre mercado, assumiu a presidência em dezembro de 2015, eliminou os controles sobre a moeda e o comércio e cortou gastos do governo, incluindo os subsídios ao gás, uma medida que causou grandes aumentos nas contas dos lares com calefação.

Os manifestantes pedem maiores salários para compensar a inflação, que alcançou os 40% no ano passado e deve ficar em torno de 20% em 2017.

"A situação é dramática", disse Julio Piumato, porta-voz da central sindical CGT, em uma entrevista por telefone à Reuters. "A riqueza está sendo concentrada nas mãos de uns poucos no mesmo ritmo com que a pobreza está crescendo", afirmou. "Medidas urgentes são necessárias para criar empregos. Um de cada três argentinos é pobre".

Uma pesquisa feita no mês passado mostrou que, pela primeira vez desde que Macri foi empossado, mais compatriotas desaprovam do que aprovam seu desempenho.

A terceira maior economia da América Latina segue em recessão. Caiu 2,3% no primeiro ano do governo de Macri e apenas em janeiro houve uma leve recuperação, ainda imperceptível para a classe média e trabalhadora. A pobreza aumentou e alcança 32,9% dos argentinos. Os investimentos caíram 5,5%. A produção industrial está em queda há 13 meses.

As demissões totalizaram 250 mil na economia formal, mas estima-se que se multiplicam por milhares em uma economia com 40% de trabalho não registrado. A indústria e a construção, principais pilares do emprego, entraram em colapso, e em fevereiro caíram 6% e 3,4%, respectivamente.

A chuva de investimentos prometida por Macri ao assumir a presidência, em dezembro de 2015, ainda não ocorreu.

Em meio à polarização política, Macri endureceu nesta semana sua postura em relação aos sindicalistas, depois que no sábado dezenas de milhares de pessoas surpreenderam com uma concentração inédita para expressar apoio ao seu governo. "Há comportamentos mafiosos em sindicatos, empresas, política e justiça. Felizmente eles são minoria, mas é preciso combatê-los", disse.

Uma convocação para romper a greve foi promovida nas redes sociais sob a hashtag "#YoNoParo".

A paralisação desta quinta coincide com a realização em Buenos Aires do primeiro Fórum Econômico Mundial dedicado à América Latina (WEF Latam), que reunirá políticos, banqueiros e empresários no exclusivo bairro de Puerto Madero, sob fortes medidas de segurança. Organizações sociais marcaram uma passeata rumo ao hotel Hilton, que abriga o fórum, a partir das 11 horas (mesmo horário de Brasília), horário em que Macri abriria o evento. /AFP e REUTERS

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