Jorge Adorno/Reuters
Jorge Adorno/Reuters

'Greve histórica' paralisa Paraguai, dizem sindicatos

Greve geral criticou a política econômica do presidente Cartes e reuniu camponeses, estudantes e trabalhadores

O Estado de S. Paulo,

27 de março de 2014 | 12h08

ASSUNÇÃO - Os sindicatos paraguaios dizem que o país viveu na quarta-feira 26 uma "greve histórica". A primeira greve geral em vinte anos no Paraguai foi a forma de protesto contra a lei de APP (Aliança Público-Privada) e o primeiro grande movimento contra o novo presidente Horacio Cartes.

De acordo com as sete centrais sindicais organizadoras, a greve teve uma adesão de 90% em todo o país. Em comunicado, Cartes pediu respeito às pessoas que não participaram da greve geral, sem criticar os manifestantes. "Meu governo reconhece a legitimidade da maioria das reivindicações, que são postergações históricas que demandam uma gestão cada vez mais comprometida com os setores menos favorecidos."

Segundo os sindicatos, a greve reuniu trabalhadores de todos os grêmios, além de estudantes universitários e de ensino médio.

Um dos medidores de temperatura da greve foi a incidência do transporte, que respondeu quase em sua totalidade ao chamado, afirmou o secretário-geral do sindicato Central Unitário de Trabalhadores-Autêntico (CUT-A) Víctor Ferreira. "Podemos dizer que só 10% do transporte público funcionou e todos os ônibus de linha, inclusive os que viajam aos países vizinhos, pararam."

A Ponte da Amizade, passagem fronteiriça que une Ciudad del Este com o Brasil, foi bloqueada durante várias horas pelos manifestantes.

A greve tinha como principal bandeira a revogação da lei de APP, iniciativa de Cartes considerada pelos sindicatos como uma "privatização encoberta" das empresas públicas.

O governo defende que a lei, aprovada pelo Congresso no ano passado, foi criada para atrair capital privado para o investimento em infraestruturas. Em troca se outorga às empresas a concessão de sua gestão e a cobrança de tarifas.

Os grupos sindicais também exigem o aumento do salário mínimo, o controle dos preços da cesta básica e a queda na tarifa do transporte.

Campo. Em outro ato, milhares de camponeses foram do interior do país até Assunção para participar na XXI Marcha do Campesinato Pobre, que defende a reforma agrária e uma mudança no modelo de produção latifundiária. Os camponeses se concentraram em frente ao Congresso.

A semelhança das exigências e críticas de operários e camponeses ao governo deu força a suas reivindicações, disseram as centrais sindicais. "É histórica. É a primeira greve geral no Paraguai na qual se vê trabalhadores, camponeses e estudantes. A partir de agora esta greve será uma referência válida para toda a sociedade", afirmou o presidente da Central Unitária de Trabalhadores (CUT), Aldo Snead.

Para Ferreira, a greve representa o "renascimento da classe sindical" e o fruto de quatro meses de trabalho conjunto "para conseguir este êxito".

Para os sindicatos, agora a bola está no telhado de Cartes, que lhes convidou a participar de uma mesa de diálogo que estará liderada pelo vice-presidente Juan Afara. Os sindicatos, que aceitaram o convite, vão propor a Afara os mesmos pontos que motivaram a greve geral, fazendo insistência na revogação da lei de APP e no reajuste salarial.

As centrais sindicais pedem um aumento de 15% do salário mínimo, já que consideram insuficiente o 10% decretado pelo governo em fevereiro - medida que, segundo os sindicatos, foi aprovada para frear a greve. Com o aumento do 10%, o salário mínimo se situa em 1,82 milhão de guaranis por mês (cerca de R$ 930).

Ferreira explicou que será concedido um prazo de quatro meses ao governo para que demonstre sua vontade de negociação, mas que, em caso contrário, outra greve geral será convocada após esse período. "Esperamos que o governo entenda que somos atores sociais e como tais devemos ser respeitados e escutados", concluiu Ferreira./ EFE

 

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