Greves tornam cidade suja e cotidiano mais tenso

Altos índices de inflação, aumento de tarifas e da violência e paralisações no setor de transportes irritam argentinos

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

BUENOS AIRES

A bancária Sandra Morelli esperava impaciente um ônibus na Praça Francia, na frente do Museu Nacional de Belas Artes. "Tudo piorou. O transporte, que demora mais pelas constantes manifestações que todos os dias afetam o centro da cidade; o acúmulo de lixo, a burocracia. A gente vai fazer um documento em uma repartição pública e algo simples como um DNI (equivalente ao RG) pode demorar dois meses!" Sandra olha para a Avenida Libertador e vê que o ônibus que esperava passa lotado. Vira de costas, em sinal de que não pegará o transporte e esperará um ônibus menos cheio. Com amargura, completa: "O humor das pessoas também está em baixa, e não é à toa. Todo mundo está irritado."

A irritação de Sandra ilustra como o cotidiano dos argentinos se tornou mais tenso. Motivos existem de sobra, já que na segunda-feira, enquanto tomava o café da manhã, a população ficou sabendo que as tarifas de energia elétrica e gás sofrerão aumentos de até 300%.

Além disso, a inflação acumulada desde o início do ano chega a 19,6%, segundo economistas independentes. O governo nega o índice e afirma que a inflação, desde janeiro, não passou de 8,3%. "O governo mente, mente e mente. A população está ficando cansada disso. O poder aquisitivo de minha família está sendo devorado pela inflação. E o governo é tão cara de pau que afirma que não existe inflação", disse o estudante de Direito Carlos Andrés.

A tensão dos portenhos aumenta ao sair na rua e constatar o acúmulo de lixo por problemas na coleta e greves do setor. De quebra, sofrem as consequências do crescimento do número de assaltos e assassinatos.

"Fui assaltado duas vezes só este mês e ele ainda não terminou! Da primeira vez fui à delegacia para fazer uma denúncia, mas desisti. Olhei para os policiais, que não fazem o menor esforço para nada, e cheguei à conclusão de que seria uma perda de tempo. A gente se sente impotente. Enquanto isso, a presidente Cristina (Kirchner) exibe suas bolsas e sapatos de luxo", afirmou Roberto Aguirre, porteiro de um prédio no bairro da Recoleta.

CHAPA-BRANCA

Pró-governo

Confederação-Geral do Trabalho (CGT)

Maior central sindical do país, é a "tropa de choque" dos Kirchners. Tem mais de 200 mil militantes de rápida mobilização para realizar piquetes

"Los Gordos"

Sindicatos dentro da CGT, mas de respaldo menos enfático a Cristina. Principal divergência não é pela política econômica, mas pela liderança da CGT

Confederação-Geral do Trabalho "azul e branca"

Oscila entre criticar o governo e aproximações circunstanciais com os Kirchners

Contra o governo

Central do Trabalhadores Argentinos (CTA)

Sindicatos de funcionários públicos, desempregados e aposentados, além de sindicatos com influências socialistas

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