Ahmad Al-Rubaye/AFP
Ahmad Al-Rubaye/AFP

Gritando ‘Morte à América’, multidão invade Embaixada dos EUA em Bagdá

Autoridades iraquianas dizem que embaixador Matthew Tueller foi retirado com segurança, mas ainda há funcionários presos dentro do prédio

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2019 | 11h00

BAGDÁ - Centenas de manifestantes, simpatizantes das Brigadas do Hezbollah, uma milícia xiita iraquiana apoiada pelo Irã, invadiram nesta terça-feira, 31, a Embaixada dos EUA em Bagdá. Aos gritos de “Morte à América”, eles ignoraram um apelo dos próprios líderes do grupo e tomaram uma das áreas de recepção, derrubando portas fortificadas, vidros à prova de balas, quebrando câmeras de segurança e incendiando duas salas. 

Autoridades iraquianas afirmaram que o embaixador americano, Matthew Tueller, e vários diplomatas foram retirados com segurança do prédio. O Departamento de Estado dos EUA, porém, não confirmou se havia outros funcionários presos na embaixada. Segundo o Washington Post, vários funcionários estão presos em um bunker dentro do edifício. Dois deles enviaram mensagens por aplicativo para dizer que “estavam seguros”.

A intervenção das forças de segurança iraquianas demorou, mas evitou que os manifestantes entrassem no complexo principal, onde são guardados documentos. A polícia contou com a ajuda de alguns soldados americanos e de tropas iraquianas de contraterrorismo, treinados pelos EUA. Eles usaram bombas de gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral. A multidão respondeu com pedras.

A invasão foi uma reação aos ataques aéreos americanos que mataram 25 combatentes da milícia, no fim de semana, perto de Al-Qaim, cidade iraquiana na fronteira com a Síria. O governo dos EUA vinha responsabilizando os paramilitares iranianos por disparos de foguetes contra uma base americana no Iraque, no dia 27, que matou um civil americano. Recentemente, a Casa Branca havia prometido “uma resposta firme”.

Na segunda, o presidente americano, Donald Trump, culpou o governo iraniano por “orquestrar” a invasão da embaixada. “O Irã matou um americano e feriu outros. Nós respondemos de maneira forte, e sempre responderemos. Agora, eles orquestraram um ataque à Embaixada dos EUA no Iraque. Eles serão responsabilizados”, escreveu o presidente no Twitter.

O governo do Irã, no entanto, alega que as Brigadas do Hezbollah – que não têm ligação direta com o Hezbollah, movimento xiita libanês – fazem parte das Forças de Mobilização Popular, coalizão de 40 milícias xiitas iraquianas que combate o Estado Islâmico. Teerã afirma que o ataque dos EUA apenas ajudou os jihadistas

O Iraque também reagiu, afirmando que será forçado a “rever suas relações” com os EUA” e ameaçou convocar seu embaixador em Washington. “Os ataques violaram a soberania do Iraque e as regras de engajamento da coalizão internacional liderada pelos EUA”, afirmou o governo, em comunicado. “Isso nos força a rever nossas relações nas áreas de segurança, política e jurídica.” Segundo comunicado da Casa Branca, Trump e o primeiro-ministro iraquiano Adel Abdel Mahdi discutiram questões de segurança regional nesta terça-feira após o ataque.

A decisão de atacar uma milícia iraquiana – ainda que apoiada pelo Irã – pode ter sido um tiro no pé dado pelo governo americano. Os bombardeios desencadearam uma nova onda contra a presença de tropas dos EUA no país e deixaram em segundo plano a revolta popular contra a corrupção e a influência do Irã no Iraque. Os protestos, que começaram em outubro, deixaram mais de 500 mortos.

A Embaixada dos EUA em Bagdá fica dentro da Zona Verde, fortemente fortificada, que normalmente está fora dos limites dos civis. O complexo é a maior instalação diplomática do governo americano no mundo e foi aberto com muito alarde há mais de uma década como um símbolo da influência dos EUA no Iraque. 

Na segunda, porém, o cenário era devastador e parecia um símbolo da vulnerabilidade dos americanos em um país onde os EUA, cada vez mais, contam com menos aliados. Jaafar al-Husseini, porta-voz das Brigadas do Hezbollah, disse que a intenção é que os manifestantes cerquem o prédio até que as instalações sejam fechadas e os diplomatas americanos deixem o Iraque. 

A crise atual causa calafrios na velha guarda da diplomacia americana, que ainda se lembra da invasão da Embaixada dos EUA em Teerã, em novembro 1979, quando estudantes enfurecidos mantiveram 52 diplomatas reféns por 444 dias – eles exigiam que os americanos devolvessem o xá Reza Pahlevi, exilado nos EUA e derrubado pela revolução islâmica, para que ele fosse julgado no Irã.

Sem acordo, o presidente americano, Jimmy Carter, foi criticado por deixar a situação sair do controle. Ele tomou várias medidas, incluindo um embargo ao petróleo iraniano. Finalmente, em setembro de 1980, Khomeini encerrou a questão e libertou os reféns. Para Carter, no entanto, o episódio custou a reeleição – ele acabou derrotado pelo republicano Ronald Reagan, tornando-se o único presidente democrata a não conseguir se reeleger. / WP, REUTERS e AP

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