AFP PHOTO / Ritzau Scanpix / Christian Klindt Soelbeck
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Groenlândia vai às urnas em busca de sua independência da Dinamarca

Seis dos sete partidos envolvidos na eleição do Parlamento local defendem a autonomia total do país em relação ao reino, cuja ocupação completará 300 anos em 2021; no entanto, 60% do orçamento groenlandês vem da verba enviada por Copenhage

O Estado de S.Paulo

24 Abril 2018 | 17h04
Atualizado 25 Abril 2018 | 14h12

COPENHAGE, DINAMARCA - A independência da Groenlândia concentra todas as atenções nas eleições desta terça-feira, 24, para o Parlamento local deste território autônomo dinamarquês rico em recursos naturais mas pouco utilizado, ameaçado pelo aquecimento global e os problemas sociais de sua população, predominantemente autóctone.

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Desde 2009, a Groenlândia é amplamente independente em sua política econômica, mas Copenhage ainda é responsável pelas funções soberanas como a moeda e a política externa e de defesa. O governo da Dinamarca mantém, sobretudo, em perfusão esta enorme ilha coberta de gelo em 75% de seu território e que tem apenas 55.000 habitantes em uma superfície quatro vezes maior que a França.

Se a Constituição dinamarquesa reconhecer o direito à autodeterminação da ilha, a secessão privaria a ilha das 3,6 bilhões de coroas (€ 483 milhões) enviadas pelo governo central a cada ano. Esta receita representa quase 60% de seu orçamento e explica o dilema dos independentistas: separar sem empobrecer. Com um PIB de US$ 2,2 bilhões dólares em 2015, a Groenlândia independente seria uma das menores economias da Europa, ao lado de San Marino - nação com apenas 61 quilômetros quadrados e com PIB de US$ 2,2 bilhões.

Dos sete partidos no processo, seis defendem a independência e, desses, alguns desejam a declaração em 2021, quando a ocupação dinamarquesa completa 300 anos. Outros não apresentam um calendário preciso.

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O surgimento de uma nova força - Nunatta Qitornai, criada há meses pelo "ex-ministro" de Relações Exteriores Vittus Qujaukitsoq - e intenções proclamadas do Partii Naleraq fixando 2021 como data para se separar da Dinamarca, deram protagonismo à linha mais radical, embora não pareça que vá ter um grande apoio.

De acordo com as pesquisas, o Inuit Ataqatigiit (IA), partido ecológico de esquerda, deve ser o vencedor das eleições para o Inatsisartut, o Parlamento de 31 cadeiras da ilha.

Uma pesquisa divulgada na sexta-feira apresentava 31% das intenções de voto para o IA, à frente de seu grande rival, Siumut, de tendência social-democrata, que domina a vida política groenlandesa desde 1979. O único partido contrário à independência, o Partido da Cooperação, tem apenas 2,9% das intenções de votos.

"A independência amanhã seria uma catástrofe social", reconheceu neste fim de semana em entrevista ao jornal "Politiken" Sara Olsvig, candidata do IA, que aparece com uma leve vantagem nas pesquisas, embora o Siumut já tenha sido capaz de reverter vantagem semelhante em 2014.

O atual presidente autônomo, o social-democrata Kim Kielsen, se expressou em termos parecidos, ressaltando a importância de diversificar a economia e buscar novos ingressos para não depender só da pesca e da contribuição anual dinamarquesa.

As duas formações poderiam reeditar a coalizão que governou o último ano e meio e que impulsionou, por exemplo, uma comissão para elaborar uma Constituição própria dentro do que é conhecido como Consórcio de municípios do Reino ("rigsfælleskab", em dinamarquês), semelhante do outro território autônomo, as Ilhas Faroe.

Mas o desacordo sobre a derrogação da proibição de extrair urânio e outros materiais radiativos para impulsionar o setor minerador abre passagem a outras possíveis coalizões de governo com forças mais moderadas com relação à linha separatista.

Para Aaja Chemnitz Larsen, do partido IA, antes de falar de um calendário é necessário refletir muito. "Os investimentos estrangeiros serão essenciais para o desenvolvimento da sociedade groenlandesa", explica a deputada. 

O partido quer a diversificação dos investimentos, pois a Groenlândia desperta o apetite tanto dos países ocidentais, como de russos e chineses por sua localização estratégica no Ártico.

Mas Copenhage teria algo a dizer se considerar que os investimentos ameaçam sua política externa e de segurança.

Para financiar sua soberania, o território tem muitas vantagens, "especialmente com os minerais", aponta Mikaa Mered, professor de Economia e Geopolítica no Instituto de Estudo das Relações Internacionais, em Paris, especializado no Ártico. "Mas sofre de um problema de infraestruturas e falta de mão de obra."

A pesca, que representa 90% das exportações da Groenlândia, pode ser beneficiada provisoriamente com a mudança climática, ao permitir a diversificação das capturas. O turismo luta para decolar, enquanto aumenta consideravelmente na vizinha Islândia.

A participação nas votações é elevada na Groenlândia, com quase 70% dos 40.000 eleitores. / AFP e EFE

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