Grupo acusa Honduras de manobra para atrasar OEA

Segundo líder da Resistência ao Golpe, governo queria evitar que organização visse manifestações pró Zelaya

BBC, AP e Efe

10 de agosto de 2009 | 18h27

Partidários do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, afirmaram nesta segunda-feira, 10, que as autoridades adiaram intencionalmente a chegada da missão de chanceleres da Organização dos Estados Americanos (OEA) para evitar que presenciasse grandes manifestações populares.

 

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Juan Barahona, líder da Frente Nacional de Resistência ao Golpe de Estado, afirmou que "os golpistas, para evitar que as marchas de resistência coincidissem com a presença da OEA, adiaram a visita da OEA."

 

A Organização havia programado chegar ao país nesta terça-feira, 11, mas o governo cancelou no domingo, 9, a chegada da missão.

 

Nova data

 

O novo Governo de Honduras busca uma data para receber uma missão de chanceleres da Organização dos Estados Americanos (OEA), após concordar que o secretário-geral do organismo, José Miguel Insulza, participe como "observador". A data de chegada da delegação de chanceleres de países da OEA a Tegucigalpa não foi marcada, mas pode ser divulgada entre hoje e amanhã, disse, em entrevista coletiva, o chanceler hondurenho, Carlos López, que considera que a situação em seu país "tende a se normalizar".

 

Segundo López, a "crise" foi no dia 28 de junho, quando o presidente hondurenho, Manuel Zelaya, foi detido pelos militares, enviado em um avião à Costa Rica e substituído no mesmo dia por Roberto Micheletti, por decisão do Parlamento. A missão da OEA, que deveria chegar amanhã à capital hondurenha, será composta pelos chanceleres ou similares da Argentina, Canadá, Costa Rica, Jamaica, México e República Dominicana.

 

A chegada da missão foi adiada, porque o Governo de Micheletti rejeitou a presença de Insulza no domingo, a quem acusa de não ser neutro sobre conflito atravessado por Honduras, depois do golpe de Estado que derrubou Zelaya.

 

No entanto, ontem mesmo, o Governo de Micheletti retificou e anunciou que "as diferenças tinha sido conciliadas" e que isso permitia que Insulza participasse "como observador" da comissão.

López enfatizou, na entrevista coletiva, que Insulza "não é a pessoa importante nesta missão, mas os chanceleres". Insulza, por sua parte, disse hoje em Washington que a delegação de alto nível da OEA viajará para Honduras com o propósito de dialogar sobre o Acordo de San José, mas não impôs uma postura.

 

Por outro lado, o dirigente camponês Rafael Alegría, integrante de um movimento de resistência popular que exige o retorno de Zelaya ao poder, disse à Agência Efe que "o regime golpista de Micheletti não tem autoridade moral para decidir quem integra ou não a missão da OEA". "O que Micheletti quer é que a missão da OEA não veja a mobilização popular com milhares de hondurenhos que teremos amanhã em San Pedro Sula e Tegucigalpa", acrescentou Alegría.

 

O ex-presidente Rafael Ruelas comentou a jornalistas que há "distintas opiniões" sobre Insulza, mas que "o importante é que as comissões que vierem, mantenham a objetividade sobre a análise do país". Ruelas, do opositor Partido Nacional de Honduras, ressaltou que o diálogo interno deve ser mantido, enquanto "o de fora deve ser buscado pelo Acordo de San José", mediado pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias.

 

Sobre a restituição de Zelaya no poder, disse que "é um tema muito mais complexo" e que "antes de qualquer análise sobre o assunto, é preciso ver a realidade nacional", porque "o ambiente aqui é muito tenso". "É um ambiente muito polarizado, é uma situação que não conhecíamos antes, de profunda falta de respeito a certas condições, meios e pessoas no país. O importante é que se constitua em breve este caminho de reconciliação nacional", disse Ruelas.

 

O chanceler López disse que o processo para buscar uma solução à crise deve ser trabalhado "no marco da mediação por acordo das partes e por acordo da OEA, que passou o tema à liderança do presidente Arias". Além disso, segundo o diplomata hondurenho, a maioria das chancelarias da América expressou "apoio à mediação de Arias e que estão esperando o desenvolvimento deste processo".

 

Enquanto se define a data da chegada da missão da OEA, o movimento de resistência que exige a restituição de Zelaya marcou para amanhã duas "grandes mobilizações" em Tegucigalpa e San Pedro Sula, reiterou Alegría. O dirigente camponês disse à Efe que as duas "manifestações pacíficas marcarão a saída dos golpistas do poder e o retorno de Zelaya".

 

Intervenção unilateral

 

O presidente do México, Felipe Calderón, criticou os países que pedem uma intervenção unilateral dos Estados Unidos em Honduras, para restituir o presidente Manuel Zelaya no poder, e defendeu uma resolução da situação com as leis e os organismos internacionais existentes. "Reconheço o paradoxo que envolve o presidente dos EUA, Barack Obama, que quem mais rejeita a intervenção americana na região é agora quem mais pede a intervenção dos Estados Unidos, por mais legítimo que seja o propósito", disse, na cidade mexicana de Guadalajara.

 

Calderón fez as declarações na entrevista coletiva final da 5ª cúpula de líderes da América do Norte, na qual Obama reiterou seu apoio ao restabelecimento da ordem democrática em Honduras, após o golpe de Estado do dia 28 de junho.

 

O líder mexicano disse que a "aposta deve ser nas instâncias internacionais e no direito internacional e não na intervenção de um só Estado, ou de uma só pessoa, para resolver um tema desta natureza". "Ficamos feliz hoje que o presidente Obama esteja na Presidência dos Estados Unidos e possamos fazer exigências desse tipo, mas no passado e, claro, no futuro, não sabemos quem poderá estar nesse cargo", disse.

 

"Não compartilho a opinião de que os EUA sejam o grande juiz e o solucionador final, via intervenção, nos assuntos de nossos países", afirmou. "Em todo caso poderíamos talvez criar um grupo de países amigos de Honduras que atue tanto com o trabalho mediador de Óscar Arias, quanto com o trabalho da Organização dos Estados Americanos (OEA)", sugeriu, mas não deu mais detalhes sobre essa iniciativa.

 

EUA

 

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou nesta segunda-feira, 10, durante uma visita a Guadalajara, no México, que aqueles que criticam os Estados Unidos por não terem dado uma resposta mais firme contra a deposição do presidente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, em 28 de junho, agem com "hipocrisia". As declarações foram feitas durante uma coletiva após um encontro entre Obama, o presidente do México, Felipe Calderón, e o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper.

"Os críticos que afirmam que os Estados Unidos não foram rigorosos o bastante para exigir o retorno do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, ao poder são as mesmas pessoas que dizem que estamos sempre intervindo, e que os ianques têm que sair da América Latina", disse Obama, sem, no entanto, citar nomes.

O presidente americano ressaltou que que estas pessoas "não podem exigir as duas coisas ao mesmo tempo." "Se estes críticos consideram que pode ser apropriado que nós, de repente, ajamos de um modo que, em outro contexto, eles considerariam inapropriado, então acho que isto indica que talvez haja alguma hipocrisia em sua abordagem sobre as relações entre Estados Unidos e a América Latina", disse.

Golpe

Durante o pronunciamento, Obama voltou a afirmar que o governo dos Estados Unidos considera a deposição de Zelaya "ilegal" e classificou a ascensão do presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, ao poder de "golpe". "Nós fomos claros que consideramos que o presidente Zelaya foi retirado de maneira ilegal do cargo, que isto foi um golpe e que ele deveria voltar ao poder", afirmou.

Dizendo concordar com a posição de Obama, o premiê canadense, Stephen Harper, afirmou que aqueles que fazem críticas aos Estados Unidos em relação à crise em Honduras são as mesmas pessoas que condenam a parceria entre americanos e colombianos "por questões legítimas relativas à segurança e ao tráfico de drogas".

Mais de um mês após a deposição de Zelaya, a crise política em Honduras parece longe do fim, com o governo interino do país recusando os pontos de um acordo proposto pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, para a volta do presidente eleito ao poder.

Em um comunicado conjunto divulgado após o encontro desta segunda-feira, os líderes de Estados Unidos, México e Canadá afirmaram que discutiram "a fundo o golpe em Honduras" e reafirmaram o apoio ao plano de Arias e aos esforços da Organização dos Estados Americanos para "buscar uma solução pacífica para a crise política" no país.

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