AFP PHOTO / LUIS ROBAYO
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Grupo de jornalistas usa ônibus para informar os cidadãos venezuelanos

Iniciativa ‘El Bus TV’ leva informações sobre segurança, saúde, esportes, economia e política à população; Sindicato Nacional de Jornalistas denuncia que governo ‘censura’ os meios de comunicação que lhe são incômodos

O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2017 | 15h04

CARACAS - "Bom dia a todos! Começamos com as notícias", anuncia, a bordo de um desengonçado ônibus de Caracas, um grupo de jovens jornalistas que se apressa a relatar, sem o controle oficial, os pontos mais recentes da crise vivida pela Venezuela em mais de dois meses de protestos.

Agarrando-se nos corrimãos para não cair a cada vez que o ônibus freia, María Gabriela Fernández e Dereck Blanco se juntam, diante do olhar curioso dos passageiros, atrás de um quadro de papelão preto com um botão vermelho que imita uma televisão, com um rótulo em letras azuis: "El Bus TV".

"Esta iniciativa mostra a necessidade de quebrar o cerco comunicacional que há no país e levar as notícias verdadeiras em um transporte de massa como o ônibus", explicou a redatora Claudia Lizardo.

Em três minutos, o Bus TV informa os passageiros sobre segurança, saúde, esportes, espetáculos e, é claro, economia e política, temas indispensáveis em um país com severa escassez e inflação, que vive uma onda de protestos que já deixou mais de 60 mortos.

"Cada bomba de gás lacrimogêneo custa US$ 40, com o câmbio do dólar paralelo a uns 200 mil bolívares, ou seja, um salário mínimo integral", diz Blanco, ao se referir aos confrontos entre as forças de segurança e os manifestantes opositores, que não são vistos nas telas da televisão.

Entrando nos ônibus, a jornalista e produtora Laura Castillo negocia com os motoristas. Quase sempre eles deixam subir sem cobrar a passagem.

"É uma ideia maravilhosa. Gosto quando as coisas são claras, sem violência. Acho muito importante que nos informem sobre o que está acontecendo para abrirmos os olhos", declarou Glenda Guerrero, dona de casa de 68 anos, após ouvir o noticiário atentamente.

Hegemonia

Blanco, apresentador de um telejornal nacional, se juntou ao Bus TV ao admitir que há "pressões" oficiais que impedem a divulgação de certas notícias. "É um desafio. O jornalista tem que se reinventar para levar a informação às pessoas."

Com seis jornalistas e artistas, o Bus TV começou no dia 28 de maio para marcar o 10.º aniversário do fechamento da Radio Caracas Televisión (RCTV), que era o canal mais antigo do país, crítico do governo do então presidente Hugo Chávez.

Seu sucessor, Nicolás Maduro, coincidentemente um ex-motorista de ônibus, acusa parte da imprensa de fazer uma campanha de desprestígio como uma forma de conspiração para derrubá-lo. Mas a ONG Espaço Público e o Sindicato Nacional de Jornalistas (SNTP) denunciam que o governo "censura" os meios de comunicação que lhe são incômodos.

Tiraram do ar programas de rádio e a emissora internacional CNN em espanhol. Além disso, alguns jornais lidam com uma entrega limitada de papel - monopólio do Estado - para deixá-los fora de circulação, asseguram alguns venezuelanos.

Vários meios, como o jornal El Nacional - o principal do país - e o digital La Patilla, foram processados, enquanto outros foram comprados por figuras relacionadas ao governo para mudar sua linha editorial, segundo a Espaço Público.

"O governo ganhou a disputa da hegemonia comunicacional. As fontes de informação são as redes sociais, mas nem todos têm acesso a elas e muito dali é boato. O Bus TV informa o que não sai nos meios tradicionais", comentou Laura.

A iniciativa está se estendendo, conta a jornalista, e já há Bus TV na cidade de Valencia e outro em Puerto la Cruz, adaptado à situação local.

Realidade

A Venezuela, onde o SNTP registrou 300 agressões a jornalistas durante os protestos, ocupa a posição 137 de 180 países no ranking da liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras.

O Bus TV, diz María Gabriela, que trabalha em um jornal nacional e usa o ônibus diariamente, informa sobre a realidade do venezuelano que não é refletida nos meios tradicionais. "Somos uma alternativa necessária", assegurou.

"Em economia: um quilo de asinhas de frango custa 9,5 mil bolívares. O venezuelano que ganha um salário mínimo tem que trabalhar um dia e meio para poder pagá-lo", continuam Blanco e María Gabriela Fernández na leitura das notícias.

Em política, continuam, "o presidente Maduro mudará a Constituição de Chávez sem consultar previamente os venezuelanos em um referendo". "E, enquanto isso, as padarias continuam sem pão", conclui o noticiário, entre aplausos dos passageiros. “Muito obrigado! Esse foi o Bus TV. Continuaremos informando". / AFP

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