REUTERS/Andres Stapff
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Grupo de sem-terra pressiona Congresso paraguaio

Movimentos acampados diante da sede do Legislativo pedem uma melhor distribuição de terras no país

Fernanda Simas, Enviada Especial a Assunção, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 05h00

Os 4,2 milhões de paraguaios inscritos para votar elegerão amanhã não só o novo presidente, mas governadores e um novo Congresso (45 senadores e 80 deputados). No entanto, o foco das discussões passou dos projetos legislativos que diferentes setores querem ver atendidos para o perfil dos candidatos. Entre os que concorrem, 20 senadores e 16 deputados estão envolvidos em acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. 

“O Parlamento independente é importante. E o que vemos são partidos fazendo campanha para que se vote em listas fechadas. Precisamos ter o Legislativo independente para impedir abuso de poder”, afirma a advogada brasileira Vilma Dias. 

Na eleição deste ano, será permitido votar em listas cruzadas. Com isso, a tendência, segundo projeções de agências de análise de risco, é que o Partido Colorado mantenha seu status como a principal força política do país, mas perca a maioria no Congresso. 

A Control Risks, procurada por empresas brasileiras que investem no Paraguai, explica que o cenário é resultado principalmente do crescimento dos partidos de esquerda. A Frente Guasú, do ex-presidente Fernando Lugo, pode até substituir os Liberais como segunda maior força no Legislativo.

Com a possibilidade de não haver uma maioria absoluta, os partidos terão de fazer concessões e negociações. Com isso, um dos temas discutidos desde o ano passado, a questão das terras, fica em aberto.

Desde janeiro, a Praça das Armas, ao lado do Congresso, é cenário de ocupações de movimentos que pedem melhor distribuição de terras justamente por estar afastados do centro do poder político. 

“Estamos aqui para chamar a atenção. Esses políticos encaram a terra como negócio e não como direito”, afirma Rodrigo Roja, de 33 anos, líder do movimento Asentamiento Patria Nueva, que reúne 1.246 famílias expulsas de suas terras no Departamento Central. “O governo fez a proposta de levar essas famílias para uma região onde nem estrada chega. E não vemos em nenhum político atual a esperança de uma vitória nessa causa.”

Praça popular. O espaço da praça hoje é tomado por três movimentos: o liderado por Roja, o de famílias do bairro de Chacarita (uma região pobre de Assunção que foi tomada pelas águas do rio) e do movimento indígena que reivindica terras onde vivem produtores de soja brasiguaios. 

A diferença entre os movimentos é notada na características das casas. Os ex-moradores de Chacarita vivem em barracos de madeira, os “sem-terra paraguaios” – como o movimento de Roja se autodenomina –, em barracas grandes de lona, e os indígenas, em barracas de lona menores.

Todos se organizam numa espécie de sociedade, com realização de censo de moradores, quadra de vôlei para as crianças, uma barraca maior destinada à cozinha e um espaço para armazenamento de remédios. 

Blanca, de 24 anos, caminha verificando o local e recebe as pessoas que chegam na entrada da praça. À reportagem, ela afirmou que ninguém ali sairia para votar no domingo, porque nenhum candidato representava seus interesses. 

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