Grupo islâmico elege presidente egípcio

Após uma semana de atraso, comissão confirma vitória de Morsi, da Irmandade Muçulmana, sobre o ex-premiê de Mubarak e preferido pela junta

CAIRO, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2012 | 03h05

Autoridades egípcias declararam ontem Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, ganhador das primeiras eleições presidenciais livres já realizadas no Egito, conferindo ao grupo religioso um triunfo simbólico e uma nova arma na luta pelo poder que trava com a junta militar que governa o país desde a deposição de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011.

O resultado era aguardado desde o fim da votação do segundo turno, nos dias 16 e 17. Após um discurso de uma hora, no qual descreveu as eleições como "uma importante fase" para a construção de uma "nascente experiência democrática", o chefe da comissão eleitoral, Farouk Sultan, anunciou que Morsi tinha obtido 51,7% dos votos. O outro candidato, o general Ahmed Shafiq, ligado à junta militar, obteve 48,3% dos votos.

Na Praça Tahrir, onde dezenas de milhares de egípcios haviam se juntado para aguardar o anúncio do resultado, a confirmação da vitória de Morsi provocou uma imensa celebração.

As eleições foram qualificadas como legítimas por monitores internacionais que atuaram no país durante a disputa. Mas a demora na divulgação do resultado, rumores sobre a morte de Mubarak e as medidas da junta, que assumiu as atribuições do Legislativo e esvaziou o poder do presidente, acirraram a tensão no Egito após a votação.

A vitória de Morsi, porém, é um marco ambíguo para a prometida transição do Egito para a democracia após a queda de Mubarak, há 16 meses. O governo comandado por militares reconheceu a vitória de Morsi, que se opõe à junta, sobre Shafiq. Mas esse reconhecimento faz pouco para resolver um embate mais amplo entre os generais, secularistas, e a Irmandade pelo poder sobre as instituições do governo. Segundo o plano dos generais, Morsi, de 60 anos, vai ter de comandar um gabinete esvaziado de quase toda a autoridade e sob a Carta provisória ditada pela junta militar.

Ao dissolver o Parlamento democraticamente eleito - no qual a Irmandade era a maior força - na véspera da votação presidencial, a junta abandonou a promessa de entregar o poder no dia 30, o que provocou suspeita de que um novo golpe militar era iminente. O atraso de quase uma semana no anúncio do resultado da eleição espalhou o medo de que o governo militar poderia anunciar Shafiq como o vencedor, num golpe decisivo na luta entre os generais e a Irmandade.

Após 84 anos atuando como uma sociedade secreta frequentemente posta na ilegalidade, lutando para sobreviver nas prisões e sob as sombras da monarcas e ditadores, a Irmandade está agora mais próxima do projeto de construir uma democracia islamista.

Os EUA felicitaram Morsi pela vitória, pedindo que ele conte com todos os partidos e segmentos da sociedade egípcia na formação do novo governo.

Na Faixa de Gaza, milhares de pessoas tomaram as ruas em êxtase, atirando para o alto e distribuindo doces, para comemorar a vitória da Irmandade, cuja linha política é seguida pelo movimento palestino Hamas. "Esperamos que o Egito tenha um grande papel em relação à causa palestina, ajudando a nação palestina a obter liberdade (...) e acabar totalmente com o cerco a Gaza", disse Ismail Haniyeh, líder do governo do Hamas, que comanda o território.

O governo israelense, que tem um acordo de paz com o Egito, disse respeitar o resultado das eleições. "Israel espera continuar a cooperação com o governo egípcio", disse o premiê Binyamin Netanyahu em um comunicado. / NYT, AP e REUTERS

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