Grupo islâmico faz trégua com junta egípcia

Irmandade Muçulmana promete aceitar governo interino por seis meses, até que país tenha Carta e novo presidente civil

CAIRO , O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2012 | 03h05

Prestes a dominar o novo Parlamento egípcio, a Irmandade Muçulmana adiou um esperado confronto com o Exército ao anunciar, no domingo, o apoio à manutenção do gabinete interino nomeado pela junta militar nos próximos seis meses, até que o país tenha uma nova Constituição e um presidente civil eleito.

A medida faz parte da estratégia pragmática do grupo de manter distância de partidos islâmicos mais radicais e cultivar canais de diálogo com os EUA. Segundo Essam el-Erian, veterano líder político do Partido Justiça e Liberdade, braço político da Irmandade, o desafio do grupo será blindar a nova constituinte da influência dos militares.

"Evidentemente, os militares retardarão ou perturbarão a composição da assembleia", disse. Embora o Exército tenha buscado poderes permanentes e autonomia, acrescentou, o público é contra a persistência de seu regime de qualquer forma. "Ninguém pode apoiar isso agora", afirmou ele.

Para Erian, governar o Egito neste momento requereria uma "cooperação" entre o conselho militar e o Parlamento. Na avaliação dele, uma vez eleito um novo presidente e ratificada uma nova Constituição, dentro de três meses, os militares poderiam voltar aos quartéis em segurança.

Os resultados da terceira e última rodada das eleições parlamentares confirmaram a liderança da Irmandade: ela recebeu quase 40% dos votos depositados para as listas de candidatos de partidos e alguns analistas acreditam que, quando todos os desempates de candidatos individuais estiverem resolvidos, o grupo poderá alcançar uma maioria absoluta.

O líder da Irmandade também expressou satisfação pelo fato de que, após décadas de aversão mútua, Washington parece disposto a aceitar um governo liderado pelo grupo islâmico no Egito. Ele se encontrou recentemente com autoridades americanas, como o senador John Kerry, democrata de Massachusetts, e a embaixadora Anne Patterson, e deve se reunir em breve com o subsecretário de Estado, William Burns.

"Se os americanos estão prontos para apoiar um governo democrático no Egito, isso significa muito", disse Erian. Ele assegurou ainda que a Irmandade vai honrar o acordo de paz com Israel. "Esse é um compromisso do Estado, não de uma organização ou partido, e isso nós respeitamos", afirmou.

Radicalismo. Ainda de acordo com o político, a Irmandade ficou surpresa com a força eleitoral mostrada pelos islâmicos ultraconservadores salafistas, cujo partido, Al-Nur, recebeu cerca de 25% dos votos até agora. Líderes salafistas defendem uma série de propostas radicais envolvendo a aplicação no Egito da lei islâmica ao estilo da Arábia Saudita - cortar as mãos de ladrões, apedrejar mulheres adúlteras, proibir bebidas alcoólicas, impor padrões conservadores de decência ao vestuário feminino e censurar artes e espetáculos.

"Está claro que eles são um poder político", afirmou Erian. Mas ele tentou reduzir os temores de muitos observadores ocidentais, incluindo alguns em Washington, de que a necessidade de competir com os salafistas empurraria a Irmandade para a direita.

"Esperamos conseguir atrair os salafistas para nosso lado, para ambos atendermos às necessidades do povo", acrescentou. "A inclusão no processo político foi boa para a Irmandade Muçulmana e esperamos que seja boa para os salafistas também." / THE NEW YORK TIMES

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