Grupo pede que EUA respeitem Convenções de Genebra

Dezoito afegãos estavam detidos há mais de um ano em celas de uma prisão militar norte-americana na Base da Marinha dos Estados Unidos em Guantánamo, Cuba, e eram interrogados incessantemente sobre seus supostos laços com grupos considerados terroristas.Então, repentinamente e sem nenhuma explicação, eles são libertados.Ao mesmo tempo em que Washington exige de Bagdá que trate os prisioneiros de guerra de acordo com as Convenções de Genebra, o Exército dos Estados Unidos é duramente criticado por não reconhecer que as medidas devem ser aplicadas aos suspeitos capturados no Afeganistão e detidos em Guantánamo e outras localidades secretas."Quando se trata da guerra ao terrorismo, os Estados Unidos continuam operando em meio a um limbo judicial", acusou John Sifton, representante do grupo Human Rights Watch (HRW)."Eles mantêm milhares de prisioneiros e negam a eles reconhecimento oficial sob as Convenções de Genebra", explicou Sifton à The Associated Press em Cabul.Sifton referia-se a supostos combatentes da Al-Qaeda e do Taleban detidos no Afeganistão e em outras partes do mundo durante o último ano e meio.Os militares norte-americanos qualificam os detidos como "combatentes inimigos", em vez de reconhecê-los com prisioneiros de guerra.Eles alegam que os cativos são tratados de acordo com as Convenções de Genebra, apesar de isto não ser legalmente exigido, quando se tratam de tropas irregulares.Os prisioneiros dos Estados Unidos são mantidos em Guantánamo por tempo indeterminado, não têm direito a advogado e também não são indiciados criminalmente.No sábado, 18 afegãos foram levados de Guantánamo para o Afeganistão porque deixaram de ser considerados uma "ameaça terrorista", disseram oficiais afegãos.Depois de serem interrogados pelas autoridades afegãs em Cabul, eles foram libertados e obtiveram permissão para voltar para casa nesta terça-feira.Murtaz, de 30 anos, um dos prisioneiros libertados, contou ter sido detido por combatentes afegãos aliados aos EUA que lutavam contra o Taleban em novembro de 2001, perto de Kunduz, no norte do país."Não sou um Taleban, mas fui forçado a lutar ao lado deles", explicou Murtaz, que, como muitos afegãos, usa apenas um nome.Após passar meses numa prisão afegã, Murtaz foi levado para Guantánamo, confinado numa cela a céu aberto e interrogado por oficiais norte-americanos durante horas consecutivas.Ele e os outros foram libertados "porque somos inocentes", disse ele.Sher Gullah, também de 30 anos, relatou ter sido detido no Paquistão no fim de 2001, quando procurava por emprego. As autoridades paquistanesas o prenderam e o entregaram aos soldados norte-americanos, que o levaram à Base da Marinha dos EUA em Cuba, onde ele passou mais de um ano."Não sei por que me prenderam", garante Gullah.Questionado sobre seus possíveis laços com o Taleban, ele foi enfático. "Se eu fosse membro do Taleban, os norte-americanos não teriam me libertado."Inocentes ou não, as organizações de defesa de direitos humanos criticam os Estados Unidos por manter os prisioneiros por tempo indeterminado sem direito a julgamento."Eles continuam prendendo gente no Afeganistão e em outros lugares sem garantir a essas pessoas as proteções das Convenções de Genebra", diz Sifton. "Isto constitui uma violação às Convenções de Genebra", das quais os EUA são signatários.Em outubro, outros três afegãos foram libertados de Guantánamo. Não se sabe ao certo quantos ainda estão lá."Não sabemos onde muitas pessoas estão e não está clara a justificativa legal pela qual estão detidas. De uma perspectiva de direitos humanos, isto é muito perturbador", comentou."No futuro, quem sabe qual país fará prisioneiros de guerra dos Estados Unidos e apontará para as práticas norte-americanas como justificativa" para manter detidos por tempo indeterminado e sem julgamento, diz Sifton. Veja o especial :

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