Grupo radical sequestra 41 na Argélia

Facção supostamente ligada à Al-Qaeda mata 2 e toma reféns, incluindo americanos e britânicos, em resposta à ação francesa no Mali

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2013 | 02h02

Um grupo extremista islâmico armado invadiu a refinaria de petróleo Tiguentourine, da companhia britânica BP, matou 2 pessoas e fez pelo menos 41 reféns em In Amenas, no leste da Argélia, na fronteira com a Líbia. O ataque foi uma represália contra o Ocidente pela intervenção militar da França no Mali e também contra o governo argelino, que cedeu o espaço aéreo aos caças envolvidos na ofensiva.

Em mensagem à agência France Presse, a autoria do ataque foi reivindicada por membros de uma brigada supostamente ligada à Al-Qaeda. O grupo, chamado Brigada Khaled Aboul Abbas, seria controlado por um dos líderes da Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), Mokhtar Belmokhtar. A AQMI é um dos três "exércitos" jihadistas envolvidos no conflito no Mali, ameaçando tomar a capital, Bamako, e derrubar o atual governo. Os terroristas que invadiram a refinaria estariam ainda associados a outro grupo, a brigada Moulathamine, segundo o jornal argelino El-Watan.

No fim da tarde, o ministro do Interior da Argélia, Dahou Ould Kablia, confirmou que um britânico e um argelino foram mortos durante o assalto, que ocorreu volta das 5 horas. Outros seis trabalhadores estariam feridos - dois seguranças, dois policiais e dois trabalhadores estrangeiros. Entre os reféns estariam britânicos, irlandeses, americanos, noruegueses e japoneses, mas há informações contraditórias sobre a presença de franceses.

A invasão da planta teria sido resultado do fracasso do plano inicial dos terroristas, de sequestrar um ônibus com funcionários estrangeiros que se dirigia ao aeroporto de In Amenas. Segundo Kablia, os terroristas foram dispersados pela escolta armada do veículo, que resistiu ao ataque. "Depois dessa tentativa abortada, eles se dirigiram à base e fizeram reféns um número indeterminado de trabalhadores", explicou o ministro. Kablia informou também que os militantes "não são do Mali, da Líbia, nem de qualquer país vizinho". "Trata-se de um grupo de cerca de 20 terroristas vindos da região e agindo sob as ordens de Mokhtar Belmokhtar."

Ainda segundo Kablia, os terroristas teriam reivindicado o direito de deixar o país acompanhados dos reféns e exigiriam a libertação de cem islamistas presos. "Os sequestradores pedem que esses islamistas sejam conduzidos à região norte do Mali", detalhou o ministro, referindo-se à região onde jihadistas estão em conflito com as Forças Armadas da França. Até ontem, o governo argelino recusava-se a abrir negociação com os grupos, que estariam confinados na usina.

Um funcionário da refinaria, localizado pelo jornal Le Figaro, disse que os terroristas afirmaram ter minado todo o sítio industrial. "Eles têm cerca de 40 reféns estrangeiros, mas nós não estamos todos no mesmo local", disse o trabalhador, não identificado pelo diário.

Em outro ponto do complexo industrial, outros 150 funcionários de uma segunda empresa ocidental, a francesa CIS Catering, responsável pela logística e alimentação da fábrica, estaria bloqueado e impedido de sair. Ao site do Journal de Dimanche, o diretor-presidente da empresa, Régis Arnoux, confirmou a situação de seus funcionários. "É muito preocupante porque muitas vidas estão em jogo", afirmou. "Ao todo, 150 empregados argelinos de nossa filial Cieptal estão retidos na planta do consórcio BP. Eles não têm o direito de sair da base."

Arnoux deu ainda detalhes sobre o grupo agressor, contrariando as declarações do ministro do Interior argelino. "Cerca de 60 terroristas vindos de países vizinhos, armados e muito bem equipados, atacaram a base." Ele disse ainda que o Exército da Argélia cerca a base e a sobrevoa com helicópteros.

Em razão da ofensiva francesa, a Argélia fechou sua fronteira com o Mali no último sábado.

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