Grupo religioso diz que papa não é bem-vindo na Turquia

Um dia após bispos católicos turcos confirmarem a visita do papa Bento XVI ao país, grupos religiosos protestaram em Ancara nesta terça-feira pedindo a retratação do pontífice por suas declarações consideradas ofensivas ao Islamismo. Os manifestantes, que pertencem a uma união de trabalhadores religiosos, exigiram do ministro da Justiça da Turquia a prisão do papa na sua chegada, caso ele se recuse a pedir desculpas. A visita de Bento XVI está programada para novembro. Em um episódio paralelo, o atirador turco que tentou assassinar o papa João Paulo II em 1981 e hoje está preso em uma prisão da Turquia, Mehmet Ai Agca, também aconselhou o papa Bento XVI a não visitar o país. Em carta publicada no jornal italiano La Reppublica, Agca disse que o papa corre o risco de ser morto. "Sua vida está em perigo, não venha à Turquia", adverte ele, depois de observar que escreve como alguém que conhece bem a questão. A carta do homem que tentou assassinar João Paulo II foi interpretada em Roma como uma advertência amiga a Bento XVI. Agca, que recebeu na cela a visita de João Paulo II, dois anos após o atentado, repudiou mais tarde o seu crime. A origem dos protestos dos muçulmanos foi o discurso realizado no último domingo, no qual o pontífice citou um texto medieval que caracterizava alguns ensinamentos de Maomé como "maus e desumanos". O editor-chefe do jornal turco The New Anatolian, Ilnur Cevik, comentou nesta terça que Bento XVI deverá convencer os cidadãos turcos com "sensibilidade religiosa" de que ele não é um inimigo do Islã. "Será muito difícil para o povo turco oferecer uma boa recepção, caso o papa falhe nessa tarefa", afirmou o jornalista. Na Turquia, o comentário de Bento XVI reforçou a visão difundida de que o papa é hostil à entrada do país na União Européia (UE). Quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger, o papa questionou se a UE deveria abrir suas portas para o país de maioria muçulmana, dizendo que sua adesão poderia ser incompatível com a cultura européia. Cevik disse que a visita papal seria uma oportunidade de "dissipar preconceitos de ambos os lados". "O papa deve observar o fato de que a Turquia secular e sua imensa população muçulmana pode ser o diferencial para a UE", afirmou ele.

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