Grupo retirado da Líbia chega hoje ao Brasil

Funcionários ligados à construtura Andrade Gutierrez desembarcaram ontem em Portugal

Jair Rattner, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

Retirados da Líbia pelo governo português, chegam hoje a São Paulo quatro trabalhadores brasileiros da empresa Zagope, a sucursal portuguesa da Andrade Gutierrez, que estavam na Líbia.

Leandro Chapada de Oliveira, Gilberto Paris, José Rodrigues e Fernando Alves saíram de Trípoli na quarta-feira, dia 16, num avião militar da Força Aérea Portuguesa. Aterrissaram numa base aérea da Otan na Sicília, no sul da Itália, 1 hora e 20 minutos depois. O avião seguiu para Lisboa, onde chegou na madrugada do dia seguinte. Os quatro ficaram alojados num hotel a 15 quilômetros da capital portuguesa a até a hora do retorno ao Brasil.

Apesar de estarem num país em revolta, eles ficaram à margem da agitação. "Na cidade de Trípoli, não vimos nada. Ouvíamos os rumores, víamos pela televisão que havia problemas, mas (as autoridades) diziam que (os conflitos) estavam concentrados em Benghazi (a segunda cidade da Líbia, a 1.000 quilômetros de Trípoli", contou o carioca Leandro. "Depois, começaram a falar que (os protestos) estavam chegando próximo a Trípoli e o telefone e a internet foram ficando ruins."

O único problema que os brasileiros enfrentaram para sair da Líbia foi na chegada ao terminal aéreo de Trípoli. "Estava tudo congestionado, cheio de gente. Todo mundo estava desesperado para sair do país. Não conseguíamos entrar no aeroporto. Tivemos de ligar para o embaixador de Portugal, que deu um jeito para colocar a gente para dentro", contou Gilberto. Mas eles não tiveram dificuldades no caminho para o local. Contaram que o motorista era líbio e conhecia atalhos, evitando as estradas principais.

Leandro disse que não chegou a ver o que acontecia na cidade. "De noite, ficávamos em casa. De dia, estava tudo fechado." Gilberto contou que os líbios com quem eles trabalhavam nunca mostraram sua opinião sobre as manifestações. Segundo ele, para proteger-se, todos os funcionários de sua empresa passaram a morar num só endereço. "Reunimos o pessoal da empresa e ficamos na casa de um diretor, bem isolada. Foram três dias por lá. Ficamos sem sair às ruas, aguardando orientações."

Os quatro brasileiros moravam no bairro de Saraj, a 7 quilômetros do centro de Trípoli. "Se for comparar com o Rio, seria como a distância entre a Cinelândia e a Barra da Tijuca", diz Leandro. "Eram mais de 30 pessoas na casa do diretor", contou José Rodrigues. "A casa é grande, com três pisos. A gente ficava batendo papo e tentando contato por internet e pelo telefone."

Para dormir, várias pessoas dividiam cada quarto. Gilberto acha que as famílias no Brasil tiveram mais receio que eles. "Ficavam preocupados pela falta de comunicação. Viam as imagens pela TV, não havia telefone nem internet. Não conseguiam se comunicar com a gente."

Permissão. A construtora Odebrecht conseguiu ontem à tarde a autorização para pousar aviões fretados na Líbia e resgatar seus 3,2 mil funcionários que estão no país. A companhia fretou dois Boeing 747 que, até o fim da tarde de ontem, aguardavam para entrar no espaço aéreo líbio. Desde sexta-feira, 1,8 mil funcionários da empresa já deixaram o país em voos de carreira.

A intenção é levar os trabalhadores até Malta, no sul da Europa. De lá, cada um tentará voltar ao seu país de origem. Muitos operários que trabalham nas obras da Odebrecht na Líbia vieram da Tailândia, Vietnã, Filipinas e Egito. Os executivos são do Brasil e outros países da América Latina. Caso não seja possível para os funcionários conseguir voos a partir de Malta, a empresa terá de organizar viagens para outros países e acomodação.

A Odebrecht foi a primeira construtora brasileira a se instalar na Líbia desde a reabertura comercial do país, que passou dez anos sob embargo.

A empresa começou a trabalhar no país em 2007, em duas obras no valor total de U$ 1,4 bilhão: a construção de dois terminais do aeroporto internacional da capital, Trípoli, e a criação de um anel rodoviário. / COLABOROU MELINA COSTA

RETIRADA DA LÍBIA

Grã-Bretanha

Um avião fretado deveria retirar 300 britânicos de Trípoli ontem. Outro voo está programado

França

Dois aviões militares já levaram 402 franceses de volta. Outro partiu para a Líbia ontem

Alemanha

Um voo comercial com capacidade para 330 pessoas chegaria a Trípoli ontem

Bulgária

Um voo levou 110 búlgaros de volta ontem - o retorno de outro avião é aguardado

Estados Unidos

Dois catamarãs de Malta atracaram em Trípoli para a retirada de americanos e malteses

Canadá

A chegada do primeiro avião para a retirada de canadenses está prevista para hoje

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