Grupo sunita é principal alvo de ataques no Iraque

O Despertar, que tem apoio americano, tenta se livrar da imagem atrelada aos EUA para encontrar seu lugar na política iraquiana

GUILHERME RUSSO, ENVIADO ESPECIAL / BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2012 | 03h13

Na noite do sábado, um ataque a tiros no centro de Faluja, reduto sunita a 60 quilômetros de Bagdá, feriu um major da polícia e líder do Despertar - grupo criado para combater a Al-Qaeda e outros movimentos insurgentes no Iraque. Na terça-feira, outro integrante do grupo perdeu uma perna em uma explosão na cidade de Samarra, a 125 quilômetros da capital iraquiana.

Irmão do major ferido e também um dos líderes do Despertar nos vilarejos próximos a Faluja, o xeque Saadoum Talab Ali afirmou ao Estado que, como nenhum movimento insurgente assumiu a autoria do ataque, "algum grupo xiita deve ser o responsável", já que, segundo ele, a Al-Qaeda e seus aliados "assinam seus atentados".

"O terror continua porque os americanos ainda estão no Iraque e em razão da interferência do Irã no governo do país, o que favorece as milícias xiitas", disse. Segundo Ali, apesar de seu irmão, que atua como seu "braço direito" na coordenação do Despertar na tribo Al-Jumaili, ter levado apenas um tiro de raspão na cabeça, um de seus seguranças, também membro do grupo, foi morto no ataque.

Os integrantes do Despertar são os principais alvos no conflito sectário que o Iraque enfrenta, sobretudo após a retirada das tropas dos EUA.

Associados aos EUA - foram financiados por americanos e ainda colaboram com Washington no combate ao terrorismo iraquiano -, o grupo tem inimigos tanto no lado sunita quanto no campo xiita.

O xeque, porém, fez questão de mostrar-se contra a ocupação estrangeira, reforçando que, antes de o país ser invadido, o conflito entre as facções islâmicas que lutam entre si "não existia". "Eles tomaram o meu país e instauraram a confusão por aqui. Nunca tínhamos escutado falar em mujahedin antes de eles chegarem."

O Despertar chegou a reunir cerca de 100 mil combatentes sunitas e a queda na violência no Iraque, ocorrida após 2007, é atribuída à sua luta contra a Al-Qaeda e grupos insurgentes que passaram a atuar no país a partir da invasão, em 2003. "Derrotamos todos eles", afirmou Ali.

Segurança. Durante a entrevista ao Estado, pelo menos dois dos ajudantes do xeque carregavam pistolas na cintura, mas os portões do complexo onde ele vive, no vilarejo de Al-Shahabia, perdido no deserto que cerca Faluja, permaneciam abertos.

A pelo menos cem metros do local, no entanto, um bloqueio composto por membros do Despertar - que ocupam posições no Exército e nas polícias do Iraque - guardavam o local armados com fuzis AK-47 e M-16.

Ex-oficial da Força Aérea iraquiana, Ali conta que, por ter pilotado bombardeiros Sukhoi durante a guerra contra o Irã - entre 1980 e 1988 -, entrou na lista de alvos prioritários das milícias xiitas ligadas a Teerã, o que justificaria a segurança reforçada até dentro de sua casa.

Política. "Agora que derrotamos o terror, nós (os integrantes do Despertar) nos tornamos mais políticos. Eu, por exemplo, abri meu escritório para tratar disso. Mas, atualmente, também temos nos juntado à polícia, às forças especiais e ao Exército", disse.

"Esse é o nosso plano para o futuro. Apenas nessa região, cerca de 2,5 mil filhos da tribo passaram a integrar as polícias do país. No entanto, um integrante do Despertar ganha somente US$ 1.000 por mês, o que é muito pouco", afirmou Ali, enquanto relatava as histórias das tentativas de assassinato que sofreu e dos combates terrestres que participou.

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