Grupos ameaçam boicotar Arizona e pressão contra lei imigratória se amplia

Bloqueio. Primeiros processos contra legislação aprovada na semana passada, que abre caminho para que suspeitos de ser imigrantes ilegais sejam presos, chegam à Justiça americana; e empresários se preocupam com efeitos de retaliação contra seus produtos

Patrícia Campos Mello, correspondente em Washingotn, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Numa tentativa de derrubar a polêmica lei de imigração adotada pelo Arizona, centenas de pessoas, grupos de direitos civis e entidades ligadas a comunidades de imigrantes ameaçam boicotar produtos e serviços do Estado. Ao mesmo tempo, chegaram ontem à Justiça dois dos primeiros processos contra a medida.

Um policial do Arizona e uma organização de hispânicos entraram com as ações judiciais ontem pedindo que a lei não entre em vigor. A nova norma exige que policiais estaduais questionem e prendam pessoas pela simples suspeita de serem imigrantes ilegais. Caso não o façam, os policiais estão sujeitos a multas. A lei, proposta pelo Senado estadual, foi assinada pela governadora Jan Brewer na semana passada e entra em vigor em julho, caso não seja derrubada nos tribunais. Para os críticos, a lei vai levar a "estigmatização racial", ou seja, qualquer pessoa parecida com hispânico que for pega sem documentos acabaria presa.

Os críticos estão fazendo uma campanha para que empresários e turistas boicotem o Estado. As cidades de Denver, San Francisco e Los Angeles proibiram funcionários de viajar para o Arizona. Segundo a Associação de Hotéis do Arizona, seis convenções que se realizariam no Estado foram canceladas, incluindo a conferência dos advogados de imigração. A Liga de Beisebol está sendo pressionada para cancelar seu jogo em Phoenix. Manifestantes com cartazes de "Boicote ao Arizona" e "Reforma, não racismo" já fizeram protesto ontem em Denver, em um jogo do Arizona Diamondbacks contra os Colorado Rockies.

"O Arizona vai sofrer muito, porque é uma economia que depende muito do turismo, mais do que outros Estados", disse ao Estado Ted Alden, especialista em imigração do Council on Foreign Relations. O Grand Canyon fica no Arizona.

Até celebridades entraram na briga. O bispo sul-africano Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, disse em seu website que apoia o boicote às empresas do Arizona. "Entendo que o Arizona tenha se tornado uma porta de entrada para um número cada vez maior de imigrantes ilegais vindos do sul, mas uma solução que é degradante para pessoas inocentes, e torna suspeito qualquer um que não fale inglês direito, não é uma solução", disse Tutu. A cantora colombiana Shakira foi a Phoenix discutir a lei com o prefeito, que se opõe à legislação.

Martin Escobar, policial que trabalha há 15 anos em Tucson e entrou com um processo para derrubar a lei, alega que a nova lei fere a Constituição e atrapalha o trabalho dos policiais. Ele pede que a polícia não seja obrigada a parar pessoas supeitas de serem imigrantes ilegais.

O outro processo foi aberto pela Coalizão nacional de padres latinos e líderes cristãos. A Coalizão pede que as autoridades sejam impedidas de aplicar a lei de imigração. O argumento é constitucional - garantia de fronteiras seria uma jurisdição de leis federais. O secretário de Justiça americano, Eric Holder, também afirmou que o Executivo pode contestar a lei na Justiça.

"Meu telefone não para de tocar, as pessoas estão em pânico", disse ao Estado a advogada Milva Lehm, uma paulistana que vive há 20 anos no Arizona. "Na prática, essa lei diz o seguinte: se você tem cara de mexicano, pode ser preso." Segundo ela, imigrantes ilegais brasileiros também estão com medo. "Alguns brasileiros também se encaixam no perfil que os policiais buscam." Os defensores da lei dizem que ela é necessária para reduzir a criminalidade. "Isso é besteira, tem criminoso chinês, brasileiro e americano - eles estão é fazendo os mexicanos de bode expiatório", disse Milva.

PONTOS-CHAVE

Cidadania

Câmara do Estado do Arizona aprovou na semana passada lei exigindo que candidatos à presidência dos EUA mostrem certidão de nascimento para provar sua cidadania americana

Martin Luther King

O Arizona foi um dos últimos Estados a aderir ao feriado em homenagem ao líder do movimento dos direitos civis. O feriado só foi aceito após um amplo boicote contra o Estado nos anos 90

Porte de armas

Legislação sobre o tema no Estado é uma das mais liberais do país. Qualquer pessoa pode portar uma arma, sem nenhum registro ou exame de antecedentes

Cor de rosa

Xerife do Condado de Maricopa, no Arizona, colocou presos em tendas quando as cadeiras da região atingiram a capacidade máxima e obrigou os detentos a usarem cuecas cor de rosa

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