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Grupos armados em Mianmar ameaçam junta militar após 520 civis mortos desde o golpe

Crescem conflitos em regiões fronteiriças habitadas por minorias étnicas, e rebeldes e oposição civil discutem formação de aliança contra Exército

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2021 | 08h00

YANGON - A brutal repressão conduzida por generais de Mianmar para conter os protestos desde o golpe que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi já matou 521 pessoas, incluindo muitos estudantes e adolescentes, informou a organização Associação de Ajuda aos Presos Políticos (AAPP).

A ONG afirma que o número de vítimas "é provavelmente muito maior", sobretudo porque centenas de pessoas continuam desaparecidas. Grande parte dos assassinatos aconteceu a tiros. Sábado foi o dia mais violento até aqui, e ao menos 141 pessoas foram mortas pelos militares.

Apesar do aumento da violência, milhares de manifestantes saíram para marchar em várias cidades nesta terça-feira, de acordo com a mídia e fotos nas redes sociais. Na capital econômica Yangon, várias ruas amanheceram cobertas de lixo, em um novo ato de desobediência civil.

Em meio à continuação da repressão, grupos rebeldes armados de minorias étnicas nas fronteiras birmanesas ameaçam se unir e aderir à resistência contra a junta militar caso persista a repressão violenta.

Mianmar está em crise desde a deposição pelo Exército do governo democraticamente em 1º de fevereiro, com a volta de um regime militar após uma década de tentativas de democracia.

Além das cidades e vilas em todo o país que estão tomadas por protestos, também se intensificaram os combates entre o Exército e os insurgentes em regiões fronteiriças, para onde estão fugindo muitos refugiados.

Os rebeldes lutam contra o governo há décadas por maior autonomia em regiões fronteiriças, distantes das grandes cidades. Os oponentes do golpe pediram uma frente única, composta por manifestantes urbanos e os grupos insurgentes, contra os militares.

Um dos grupos rebeldes mais fortes, a Unidade Nacional Karen, que opera ao longo da fronteira com a Tailândia, no Sudeste,  disse em comunicado que responderá a apelos de socorro de opositores do governo enviando combatentes para protegê-los.

O grupo disse que se prepara para sofrer uma grande ofensiva da junta militar. Em resposta, as tropas rebeldes estão atacando posições do Exército de Mianmar e cortando as rotas de abastecimento.

"Milhares de tropas militares terrestres birmanesas estão avançando em nossos territórios de todas as frentes", disse o grupo em um comunicado. "Não temos outra opção senão enfrentar essas sérias ameaças representadas pelo Exército da junta militar ilegítima e defender nosso território".

Na terça-feira, três outras forças guerrilheiras, incluindo o poderoso Exército Arakan no estado de Rakhine, no Oeste do país, prometeram aderir ao que chamaram de "revolução da primavera" se os assassinatos de civis não pararem.

Parlamentares civis, incluindo muitos que estão na clandestinidade, anunciaram planos para formar um "governo de unidade nacional" em 1º de abril, concedendo importantes funções para líderes étnicos. Há reuniões online acontecendo sobre a resistência conjunta à junta militar.

Segundo um porta-voz do governo civil na clandestinidade, uma Constituição provisória foi redigida com os grupos étnicos, e há planos para a formação de um "Exército federal" para substituir os militares tradicionais.

A junta de generais justificou a sua tomada de poder dizendo que são a única instituição capaz de garantir a unidade nacional. Um porta-voz da junta não respondeu a telefonemas pedindo comentários.

Um bombardeio feito pela junta na região de Karen no fim de semana fez com que cerca de 3 mil aldeões fugissem para a vizinha Tailândia.

A Tailândia negou as acusações de ativistas de que os refugiados estavam sendo forçados a voltar para Mianmar. Apesar disso, uma autoridade tailandesa na fronteira disse que o Exército estava expulsando a maioria dos refugiados, por considerar haver segurança do lado de Mianmar.

Um porta-voz da agência de refugiados das Nações Unidas disse que estava preocupada com relatos de pessoas sendo enviadas de volta e que buscava informações na Tailândia.

Os confrontos também aumentaram no Norte, onde os insurgentes da etnia Kachin lutam contra as forças do governo.

Um estado fronteiriço na Índia retirou uma ordem para recusar comida e abrigo aos refugiados depois que a medida atraiu duras críticas públicas.

Os militares tomaram o poder dizendo que as eleições de novembro, vencidas pelo partido de Suu Kyi, foram fraudulentas, uma afirmação rejeitada pela comissão eleitoral.

Uma campanha de desobediência civil e de greves paralisou partes da economia. Os países ocidentais condenaram o golpe e a violência e pediram a libertação de Suu Kyi, e alguns impuseram sanções contra a junta.

Tradicionalmente, as críticas estrangeiras e as sanções ocidentais não conseguiram ter impacto sobre os generais./ NYT e REUTERS

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