Leah Millis/ Reuters
Leah Millis/ Reuters

Grupos de extrema direita dos EUA se fragmentam após invasão do Capitólio

Consequências devem determinar futuro de algumas organizações de extrema direita no país

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 10h00

WASHINGTON - Apenas oito semanas após a invasão do Capitólio nos Estados Unidos, alguns dos grupos mais importantes que participaram dela estão se fragmentando em meio a uma enxurrada de calúnias e acusações. As consequências irão determinar o futuro de algumas das organizações de extrema direita mais conhecidas e aumentar a preocupação quanto aos grupos dissidentes que podem tornar o movimento ainda mais perigoso.

“Este grupo precisa de uma nova liderança e uma nova direção”, anunciou recentemente a divisão de St. Louis dos Proud Boys no serviço de mensagens criptografadas Telegram, ecoando denúncias de pelo menos seis outras divisões também rompendo com a organização nacional. “A fama que alcançamos não valeu a pena.”

Divergências semelhantes surgiram no Oath Keepers, um grupo paramilitar que recruta ex-militares, e no Groyper Army, uma organização nacionalista branca focada em campi universitários e que defende a falsa alegação de que Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2020.

A reviravolta é motivada em parte pelo grande número de prisões após a invasão do Capitólio e a subsequente repressão a alguns grupos pela aplicação da lei. À medida que alguns integrantes da extrema direita abandonam grupos mais conhecidos e os atacam por conta própria, isso pode tornar ainda mais difícil rastrear extremistas que se tornaram mais encorajados a realizar ataques violentos.

“O que você está vendo agora é uma fase de reagrupamento”, disse Devin Burghart, que dirige o Instituto de Pesquisa e Educação em Direitos Humanos, um centro com sede em Seattle que monitora movimentos de extrema direita. “Eles estão tentando reavaliar seus pontos fortes, tentando encontrar novos soldados rasos e tentando se preparar para o próximo conflito.”

Os principais líderes do Groyper, Nick Fuentes e Patrick Casey, estiveram em uma acirrada discussão pública nas semanas seguintes à invasão do Capitólio. Casey acusou Fuentes de colocar apoiadores em risco de prisão ao seguir com as atividades que atraem atenção pública. Fuentes escreveu no Telegram: “Não é fácil, mas é importante continuar avançando agora mais do que nunca”.

Entre os que fazem parte dos Proud Boys, um clube de luta de extrema direita que afirma defender os valores da civilização ocidental, as recriminações foram agravadas por revelações de que Enrique Tarrio, o líder da organização, já trabalhou como informante para a aplicação da lei. Apesar das negações de Tarrio, a notícia colocou o futuro da organização em questão.

“Rejeitamos e repudiamos o informante federal comprovado, Enrique Tarrio, e toda e qualquer divisão que escolher se associar a ele”, anunciou a divisão do Alabama dos Proud Boys no Telegram, repetindo a mesma mensagem de outras divisões do grupo.

O diretor do FBI, Christopher A. Wray, defendeu na terça-feira, 2, a forma como o órgão lidou com as informações alarmantes que levaram ao ataque ao Capitólio. De acordo com Wray,  já havia um alerta sobre crescentes ameaças, como a onda de ameaças de terrorismo doméstico - cujo número de casos praticamente dobrou em relação ao ano passado.

"Aumentamos significativamente o número de investigações e prisões", disse Wray ao Comitê Judiciário do Senado, seu primeiro depoimento desde o motim envolvendo partidários do presidente Donald Trump. O diretor do FBI testemunhou em setembro que o número desses casos era de cerca de 1.000. No final de 2020, havia cerca de 1.400 casos desse tipo e, depois de 6 de janeiro, o número aumentou novamente.

Após o que aconteceu no Capitólio, acusações a respeito de informantes e agentes secretos têm sido mais apontadas dentro dos grupos. “Os traidores estão por toda parte, em toda parte”, escreveu um participante de um canal de extrema direita do Telegram.

As divisões que decidiram se afastar dos Proud Boys acusam Tarrio de liderar o grupo em confrontos chamativos com manifestantes de extrema esquerda e por invadir o Capitólio.

“Os Proud Boys foram fundados para proporcionar fraternidade aos homens da direita, não para gritar slogans aos céus” e “serem presos”, disse a divisão de St. Louis em seu anúncio.

As organizações extremistas tendem a passar por uma instabilidade interna após qualquer evento cataclísmico, como visto no caso do comício de 2017 em Charlottesville, Virgínia, que deixou uma mulher morta, ou o atentado de Oklahoma City em 1995, que matou 168 pessoas, incluindo 19 crianças.

Daryl Johnson, que estudou os Three Percenters e outros grupos paramilitares, disse que os conflitos internos atuais podem levar a um endurecimento e radicalização ainda maiores. “Quando esses grupos são interrompidos pela aplicação da lei, tudo o que eles fazem é dispersar os ratos”, disse ele. “Isso não elimina o problema dos roedores.”

O presidente Joe Biden prometeu fazer do combate ao extremismo uma prioridade e Merrick Garland, seu nomeado para o cargo de procurador-geral, disse durante as audiências de confirmação do Senado que prometia “fazer tudo que estiver ao alcance do Departamento de Justiça” para deter o terrorismo doméstico. Garland, o promotor principal no caso do atentado em Oklahoma City, também disse que os EUA estavam enfrentando “um período mais perigoso do que aquele que enfrentamos em Oklahoma City” ou nos últimos tempos.

Mas mesmo com alguns grupos extremistas pressionando por mais confronto, todos os tipos de adeptos querem se separar.

O presidente da divisão do Oath Keepers na Carolina do Norte, Doug Smith, anunciou no mês passado que estava se separando da organização nacional.

Smith não respondeu às solicitações de entrevista, mas disse ao The News Reporter, o jornal de Whiteville, Carolina do Norte, que tinha vergonha dos manifestantes que atacaram o Capitólio e espancaram policiais.

Para outros, no entanto, a invasão foi um grande sucesso, um tiro de advertência para a lei e o sistema.

“Há um pequeno segmento que verá isso como as Batalhas de Lexington e Concord, o tiro ouvido em todo o mundo, e o início da guerra santa racial ou a queda de nossa sociedade, de nosso governo”, disse Tom O'Connor , um especialista em contraterrorismo aposentado do FBI que continua a treinar agentes sobre o assunto.

Grupos de extrema direita já estão se reunindo em torno da oposição às mudanças propostas na política de imigração e à discussão de um controle mais rígido de armas sob o governo de Biden.

Os especialistas citam uma variedade de razões pelas quais a propensão à violência pode ser pior agora do que em épocas anteriores, quando organizações de extrema direita declararam guerra ao governo.

O ataque em Oklahoma City causou um período de recuo, mas a eleição de um presidente negro em 2008 ressuscitou o movimento pela supremacia branca. Esses grupos já passaram cerca de 13 anos sem qualquer esforço coordenado por parte da polícia para combatê-los, disseram os especialistas.

O tipo de extremista que mais preocupa os especialistas surgiu em outubro, quando uma célula paramilitar que planejava sequestrar o governador de Michigan foi exposta.

Em um tribunal federal em janeiro, o FBI apresentou um dos 14 réus, Barry G. Croft Jr., 44 anos, como um líder nacional dos Three Percenters, uma coalizão livremente aliada de grupos paramilitares que é difícil de rastrear porque praticamente qualquer um pode alegar lealdade ao país.

Croft ajudou a construir e testar bombas de estilhaços para atingir pessoas, de acordo com documentos judiciais, e uma lista de alvos que ele postou no Facebook incluía ameaças a Trump e Barack Obama.

Ao negar-lhe a fiança, a juíza Sally J. Berens citou transcrições de conversas gravadas por um informante nas quais ele ameaçava ferir pessoas ou explodir coisas. “Vou fazer algumas das coisas mais nojentas e desagradáveis que vocês já leram na história de suas vidas”, disse a juíza ao citá-lo./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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