Marcela Bitancourt/Acervo Pessoal
Grupo de mulheres chilenas faz performance em frente ao Estádio Nacional  Marcela Bitancourt/Acervo Pessoal

Grupos feministas latino-americanos retomam luta contra feminicídio

Em 2018, pelo menos 3.529 mulheres foram mortas na América Latina e no Caribe apenas por serem mulheres

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2020 | 05h00

Em 2018, pelo menos 3.529 mulheres foram vítimas de feminicídio em 15 países da América Latina e do Caribe, segundo dados do Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe). Mas o que é feminicídio? O homicídio de mulheres com 15 anos ou mais, mortas por razão de gênero. 

Ou seja, uma mulher foi morta a cada duas horas na América Latina e Caribe apenas pelo fato de ser mulher. A luta contra o feminicídio faz parte da pauta de grupos feministas latino-americanos, que retomam sua agenda de protestos a partir deste domingo, dia internacional da mulher. "As ruas historicamente foram negadas para as mulheres, eram tratadas como perigosas para nós, uma forma de nos manter em casa, então sair e fazer nossa luta nas ruas mostra que espaço também nos pertence", opina Lorena Astudillo, da Rede Chilena Contra a Violência contra a Mulher.

“Devemos ir para as ruas no dia 8 de março. Todos os anos as mulheres comemoram esse dia e dessa vez é um ano de movimentação social. É um momento importante para denunciar muitas coisas. É importante esse grito de mudança”, conta Marcela Betancourt, chilena de 48 anos, que integra o Las Tesis Sênior - grupo feminista de mulheres com mais de 40 anos que replicaram a famosa coreografia “Um violador em seu caminho” do grupo de meninas de Valparaíso.

No Chile, o Las Tesis ganhou notoriedade no ano passado quando seu trabalho rompeu as fronteiras e chegou à Europa. Mas a história começou em Valparaíso como um grupo de artes cênicas. “A transformação social não tem incluído o feminismo, o direito das mulheres. Então as meninas de Valparaíso fizeram uma performance para passar a mensagem de como somos abusadas e tratadas como culpadas por esse abuso. E elas fizeram algo que já há muito sabemos, falaram do Estado como cúmplice porque não fornece cuidados com o bem-estar da mulher”. Muitos outros grupos feministas traduziram sua letra para seus idiomas e a coreografia “Um violador em seu caminho” passou das ruas chilenas para outros países e continentes. No Brasil, no ano passado, a interpretação foi feita no Rio de Janeiro.

“Isso acontece porque em todo mundo as mulheres têm medo, medo de caminhar na rua sozinhas, de pegar um uber de noite, de ficar por último no trabalho, Muitas mulheres sofrem abusos dentro de seus próprios relacionamentos. Essa explosão é assim porque temos um elemento em comum: o medo de caminhar sozinhas”, resume Marcela, que convocou a realização da performance no ano passado em frente ao Estádio Nacional, em Santiago do Chile.

“E por que lá? O Estádio Nacional foi um centro de abuso durante a ditadura. Nossa performance foi uma homenagem a essas mulheres assassinadas lá. Fizemos o convite e cerca de 10 mil mulheres participaram. Achamos que iriam umas 45, 50, mas no fim apareceram 10 mil”, lembra a ativista, ressaltando que essa é apenas parte da luta feminista na região. 

No Chile, uma decisão do Senado na semana passada é vista como vitória para esses grupos: o Senado aprovou por 28 votos a favor, 6 contra e 4 abstenções o projeto de lei que "garante a paridade de gênero nas candidaturas à integração do órgão constituinte que, eventualmente, cumprirá a criação de uma nova Constituição". Agora, a lei deve ser promulgada pelo presidente Sebastián Piñera.

"A pressão das feministas nas ruas e no Congresso conseguiu que se fosse legislado a favor da paridade e dias antes do Dia Internacional da Mulher. Os congressistas e o governo sabiam que deixar de fora as mulheres levaria o projeto a ser recusado por 51% da população", afirma Carolina Carrera, da Corporación Humanas.

A Constituinte escreverá uma nova Carta Magna para substituir a herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), uma das demandas mais presentes nas manifestações do ano passado no país, mas antes um plebiscito sobre o novo documento será realizado no dia 26 de abril. “Nunca tivemos uma Constituição cidadã, sempre a mesma oligarquia que decide e muitos direitos não são respeitados. Agora é um momento histórico para mudar a Constituição com paridade de gênero. A mulher tem que ficar dentro dessa transformação. não podemos ficar segregadas novamente”, afirma Marcela.

Vizinhança

No México, grupos feministas convocaram marchas para o dia 8 e uma paralisação para o dia 9 denominada #Undíasinnosotras (#UmDiaSemNós). Recentemente, dois feminicídios na Cidade do México - o de uma jovem de 25 anos esfaqueada por seu parceiro, e o de uma menina de sete anos, vítima de abuso sexual - abalaram o país e impulsionaram os movimentos. 

O protesto contra violência de gênero no país chegou até às igrejas. Situada em um bairro da capital, a Igreja de São Cosme e São Damião decidiu retomar a tradição católica de cobrir na Quaresma todas as imagens e esculturas religiosas com mantos roxos. Este ano, porém, foram recobertas apenas as figuras femininas. 

Os grupos feministas reivindicaram ao presidente Andrés Manuel López Obrador políticas públicas para combater a violência contra as mulheres. O mesmo lema tem se repetido no Peru, onde o número de feminicídios em 2019 foi o mais alto em uma década: 168 casos. Grupos feministas peruanos também convocaram marchas para o dia internacional da mulher.

Na Argentina, a retomada dos protestos de movimentos feministas coincide com a retomada da discussão sobre a despenalização do aborto. Nesta semana, o presidente Alberto Fernández apresentará um projeto de legalização da prática ao Congresso.

Usando bandanas verdes, as ativistas a favor da legalização do aborto devem fazer uma greve de mulheres e uma manifestação até o Congresso no dia 9. Neste domingo, será realizada uma missa na Basílica de Luján, a 75 quilômetros de Buenos Aires, com o lema "Sim às mulheres, sim à vida", organizada pelos grupos contrários à legalização.

Na América Latina, Cuba, Uruguai, Porto Rico e a Cidade do México autorizam o aborto nas primeiras semanas de gestação. Em países da América Central, as leis antiaborto são consideradas duras. 

Para Lorena, a importância política dos grupos feministas está em "esclarecer o sentido da luta feminista". "Hoje mais do que nunca se tem um despertar de consciência por parte das mulheres e é preciso mostrar qual é o conteúdo do feminismo para que a sociedade entenda", conclui. 

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'Em todo o mundo, as mulheres têm medo'

Ativista chilena que realizou performance sobre a violência contra a mulher em frente ao Estádio Nacional comenta a luta feminista na América Latina

Entrevista com

Marcela Betancourt, ativista chilena

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2020 | 05h00

“Em todo o mundo, as mulheres têm medo”. A frase da chilena Marcela Betancourt, 48 anos, foi dada para explicar como a performance “Um violador em seu caminho” - de um grupo de meninas de Valparaíso - ganhou as ruas do Chile e de diversos países no ano passado. “Todos os anos as mulheres comemoram esse dia e dessa vez é um ano de movimentação social. É um momento importante para denunciar muitas coisas. É importante esse grito de mudança”, afirma ao Estado a ativista.

A partir deste domingo, 8, grupos feministas retomam marchas e paralisações no Chile para pedir políticas públicas e punições que impeçam o feminicídio. Outras pautas, como o direito ao aborto e maior participação política, também serão levadas às manifestações. 

Como conheceu o coletivo das meninas Las Tesis?

Em dezembro do ano passado, depois de dois meses do início dos protestos. No Chile, ainda temos muitos abusos de direitos fundamentais, não temos educação gratuita, a aposentadoria é muito ruim, então os cidadãos foram para as ruas. A transformação social não tem incluído o feminismo, o direito das mulheres. Então as meninas de Valparaíso (Las Tesis) fizeram uma performance para passar uma mensagem de como somos abusadas e tratadas como culpadas por esse abuso. E elas fizeram algo que já há muito sabemos, falaram do Estado como cúmplice porque não fornece cuidados com o bem-estar da mulher. A polícia tem violado os direitos humanos e, no caso das mulheres, essa violação vem sempre com cunho sexual. Muitas meninas foram colocadas nuas nas ruas. Las Tesis faz essa denúncia. Agora, muitas mulheres da minha idade estão olhando para essa nova geração, que tem um ímpeto diferente, a não aceitação do abuso contra a mulher. Minha geração muitas vezes teve de aguentar abusos, de ficar calada, de aguentar a ditadura.

E como seu grupo decidiu atuar?

Fizemos um chamado para repetir a performance em frente ao Estádio Nacional (na capital Santiago). E por que lá? o Estádio Nacional foi um centro de abuso durante a ditadura. Sempre que se tem um documentário sobre a ditadura, por exemplo, esse local é exibido e vários homens vão até lá mostrar o que aconteceu. Mas não foi só homem que sofreu lá, as mulheres também. Nossa performance foi uma homenagem a essas mulheres assassinadas lá. Fizemos o convite e cerca de 10 mil mulheres participaram. Achamos que iriam umas 45, 50, mas no fim apareceram 10 mil. Somos um grupo que está no começo e decidimos fazer parte desse processo de transformação e atuar em outros temas também, como a paridade de gênero. 

Falando da paridade de gênero, é uma vitória a aprovação de paridade de gênero para escrever uma nova Constituição?

O que acontece agora é um resultado de décadas de trabalhos das feministas. Somos mais um grupo representante disso. Na década de 1920, começamos a lutar pela participação na eleição. Desde então, temos organizações feministas surgindo. E agora somos uma a mais. No Chile, nunca tivemos uma Constituição cidadã, sempre a mesma oligarquia que decide e muitos direitos não são respeitados. Ainda temos a Constituição da ditadura de Pinochet. Agora é um momento histórico para mudar a Constituição com paridade de gênero. A mulher tem que ficar dentro dessa transformação, não podemos ficar segregadas novamente. 

Para realizar a performance, vocês precisaram conversar com as meninas de Valparaíso?

Foi uma iniciativa de muitas mulheres do nosso grupo de amigas. Nem conhecemos pessoalmente as meninas de Las Tesis. Elas são muito generosas porque colocam a sua arte à disposição das mulheres para esse momento de denúncia. Enviamos a elas uma mensagem que foi respondida de forma muito generosa. Temos muito respeito ao trabalho delas. 

Foi uma surpresa ver esse movimento se espalhar por vários países?

Foi uma explosão muito interessante. E isso acontece porque em todo mundo as mulheres têm medo, medo de caminhar na rua sozinhas, de pegar um uber de noite, de ficar por último no trabalho, Muitas mulheres sofrem abusos dentro de seus próprios relacionamentos. Essa explosão é assim porque temos um elemento em comum: o medo de caminhar sozinhas. 

Qual a importância desse dia internacional da mulher?

A gente se soma à convocatória do coletivo 8 M aqui no Chile e devemos ir para as ruas no dia 8 de março. Todos os anos as mulheres comemoram esse dia e dessa vez é um ano de movimentação social. É um momento importante para denunciar muitas coisas. É importante esse grito de mudança. A massividade que vai ter será importante também. Acreditamos que a polícia não vai reprimir, mas não sabemos o que vai acontecer.

 

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