Grupos islâmicos usam democracia para chegar ao poder

A recente vitória do grupo Hamas nas eleições parlamentares palestinas chamou a atenção do mundo para a onda verde. Mas o fenômeno já vinha sendo sentido antes, por exemplo, nos 88 assentos que a Irmandade Islâmica obteve nas eleições parlamentares do Egito no ano passado.O grande crescimento do braço político do grupo militante libanês Hezbollah e a preponderância (128 dos 275 assentos) da coalização religiosa xiita de Ibrahim Al-Jafari e Moqtada Al-Sadr na recém-composta Assembléia iraquiana também comprovam o sucesso dos movimentos religiosos islâmicos em experiências democráticas.A Turquia - possivelmente o Estado mais secular do Oriente Médio - também tem no poder desde 2003 o Partido Justiça e Liberdade, que se auto-define apenas conservador, mas cuja base eleitoral história é islâmica.Analistas e políticos dizem que os casos são muitos diferentes de país para país e que é impossível encontrar uma explicação ampla o suficiente para revelar um motivo único deste fenômeno.Mas quase todos concordam que o islamismo político foi beneficiado por alguns denominadores comuns: a insatisfação com governos na região, a falta de opção com o enfraquecimento das ideologias nacionalista e marxista e o desejo de preservar uma identidade cultural que - ao olhos de muitos muçulmanos - está sob ataque do Ocidente."Basicamente, o islamismo político representa o que os governos existentes (de países muçulmanos) não conseguiram fornecer: eficiência, honestidade, defesa da identidade (cultural) e preocupação pelos problemas dos mais fracos", avalia o diretor do programa de Estudos de Oriente Médio da Universidade Americana do Cairo, Bahgat Korany.ProtestoNo Egito, as expectativas antes das eleições de dezembro passado já eram de que a Irmandade Islâmica teria um bom desempenho, mesmo com seus candidatos concorrendo como independentes, já que organização é proibida de formar um partido político.Desde de que o presidente Hosni Mubarak chegou ao poder em 1981 e colocou o país sob leis de emergência, organizações religiosas não podem se organizar politicamente ou publicar jornais. Mas a Irmandade Islâmica conseguiu sobreviver e manter alguma força por meio de atividades sociais e religiosas.Mas mesmo os analistas mais otimistas esperavam que a Irmandade conseguisse cerca de 30 cadeiras no Parlamento e não os 88 assentos que os candidatos - unificados pelo slogan "o Islã é a solução" - levaram."Em todos os lugares em que os islâmicos são autorizados a participar de eleições, o resultado é um grande sucesso", comemora um dos principais líderes da Irmande Islâmica no Egito, Essam El Erian.De fato, nas eleições parlamentares egípcias o grande sucesso da oposição foi restrito aos islâmicos. Os oposicionistas seculares - esquerdistas, liberais e nacionalistas árabes - amargaram um fracasso retumbante nas urnas e se tornaram praticamente marginais na política egípcia."Hoje só existe uma potência gigante (Estados Unidos), um mal gigante, um dominador gigante. Quando as pessoas têm a impressão de que não existe no mundo nada que possa enfrentar aquilo que as está dominando, elas acabam se virando para a religião", avalia o presidente do partido marxista egípcio Tagamoa (União), Rifat Al Said.ProblemasO veterano político da esquerda árabe diz que antes ainda havia a opção de buscar a ajuda do bloco soviético para enfrentar os modelos do Ocidente. Mas, segundo ele, os movimentos islâmicos acabaram monopolizando o papel de oposicionistas aos governos árabes, que na maioria são aliados das potências ocidentais.Quando esses governos do Oriente Médio não atendem mais às necessidades da população, que enfrenta pobreza, corrupção e repressão política, a única alternativa vista por muitos é dar o poder a quem promete mudanças radicais e mostra dedicação à causa que defende."É comum o voto nos islâmicos representar principalmente um protesto contra a situação e não o reflexo de um identificação ideológica profunda", diz o cientista político Bahgat Korany.Ele ressalva, porém, que não se pode esquecer que o conservadorismo nas sociedades árabes é grande e que muita gente concorda com as visões religiosas apresentadas por esses políticos.

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