Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times

Grupos criminosos entram na Venezuela com aumento da ilegalidade

Com a Venezuela em ruínas, criminosos e insurgentes comandam grandes extensões do território do país. Viajamos por uma das regiões sob seu controle

Anatoly Kurmanaev / The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2021 | 15h39
Atualizado 27 de abril de 2021 | 15h12

GUARERO, VENEZUELA - Eles levam água potável aos moradores dos cerrados áridos, ministram oficinas agrícolas e oferecem exames médicos. Fazem mediação das disputas de terras, multam ladrões de gado, resolvem divórcios, investigam crimes e punem ladrões. 

Mas eles não são policiais, funcionários públicos nem mesmo representantes do governo da Venezuela, o qual praticamente desapareceu desta parte empobrecida do país.

Muito pelo contrário: eles fazem parte de um dos mais notórios grupos rebeldes da América Latina, considerados terroristas pelos Estados Unidos e pela União Europeia por realizarem atentados e sequestros ao longo de décadas de violência.

O colapso econômico da Venezuela destruiu tão profundamente o país que os insurgentes se alojaram em grandes extensões de seu território, aproveitando a destruição da nação para estabelecer seus próprios mini-estados.

E longe de fugir de medo ou exigir o socorro das autoridades, muitos habitantes das fronteiras da Venezuela - famintos, caçados por gangues de traficantes locais e há muito reclamando por terem sido abandonados por seu governo - agradecem ao grupo terrorista a proteção e os serviços básicos que o estado não consegue mais fornecer.

Os insurgentes “é que trouxeram estabilidade aqui”, disse Ober Hernández, líder indígena na península de Guajira, próximo da Colômbia. “Eles trouxeram paz”.

Guerrilheiros marxistas do Exército de Libertação Nacional, conhecido como ELN, o maior grupo rebelde remanescente da América Latina, começaram a cruzar a parte venezuelana da península no ano passado, vindos da Colômbia, onde estão em guerra com o governo há mais de 50 anos.

Com o país em frangalhos, o líder autoritário da Venezuela, Nicolás Maduro, há muito nega a presença de insurgentes colombianos em solo nacional. Mas, segundo algumas estimativas, guerrilheiros do outro lado da fronteira agora operam em mais da metade do território venezuelano, de acordo com militares colombianos, ativistas de direitos humanos, analistas de segurança e dezenas de entrevistas nas regiões afetadas.

O alcance dos insurgentes na Venezuela ficou ainda mais evidente no mês passado, quando o governo lançou a maior operação militar em décadas para expulsar uma facção dissidente de outro grupo rebelde colombiano - as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou FARC - do remoto Estado de Apure, onde os guerrilheiros montaram emboscadas e minas improvisadas.

Na capital, Caracas, Maduro ainda mantém um controle firme sobre as principais alavancas do poder e seus militares ainda são capazes de responder com força às ameaças ao seu governo. Mas em vastas regiões do país, o Estado venezuelano e sua autoridade estão encolhendo drasticamente, permitindo que grupos armados e organizações criminosas de todos os matizes assumam o controle, muitas vezes com consequências devastadoras.

Viajamos até a península venezuelana de Guajira em março, a convite de líderes indígenas, para documentar a retirada do Estado e a ilegalidade preenchendo o vazio.

O colapso econômico em que a Venezuela se precipitou - resultado de anos de má gestão governamental, seguidos de sanções paralisantes dos Estados Unidos contra o governo de Maduro - desencadeou na península uma guerra entre grupos criminosos pelo controle das rotas de contrabando para a Colômbia, disseram os moradores locais. Por dois anos, o peso da violência recaiu sobre o povo indígena Wayuu, que há muito tempo perambula entre os dois países.

Apanhadas no fogo cruzado, as famílias Wayuu contaram que fugiram de suas casas à noite, chamando as crianças no meio da fuga, deixando para trás todos os seus pertences, o gado e os túmulos ainda frescos de seus parentes.

Centenas deles escaparam pelo meio do matagal até a Colômbia. Os que permaneceram passaram a viver sob terror, resignados à falta de proteção do governo da Venezuela.

Então, disseram eles, rebeldes do ELN armados e com sotaques colombianos começaram a aparecer no ano passado, oferecendo ajuda aos Wayuu. Organizado e bem armado, o ELN rapidamente desalojou as gangues locais que aterrorizavam os vilarejos. Os guerrilheiros impuseram penalidades severas para furtos e roubo de gado, mediaram rixas por terra, trouxeram caminhões com água potável, ofereceram suprimentos médicos básicos e investigaram assassinatos de uma forma que o estado jamais fizera, disseram os moradores.

Mas não foi exatamente uma iniciativa de caridade. Em troca da estabilidade, o ELN assumiu as rotas do contrabando e do narcotráfico na área, assim como em partes da Colômbia. E também começou a taxar lojistas e fazendeiros.

Assim como em outras partes da América Latina, a Venezuela já abrigava grupos armados ilegais muito antes da atual crise econômica. Os guerrilheiros colombianos usam o interior da Venezuela como refúgio há décadas, e as negligenciadas favelas de Caracas há muito tempo são o lar do crime organizado.

Mas raras vezes as organizações criminosas exerceram tanto controle territorial e econômico quanto agora, uma poderosa ilustração do declínio do país sob o governo Maduro.

“A Venezuela está caminhando feito um sonâmbulo para a fragmentação nas mãos dos grupos armados”, disse Andrei Serbin Pont, analista de segurança da América Latina. “Recuperar o controle do território será um enorme desafio para quem estará no poder na Venezuela nas próximas décadas”.

Estado forte

Abastecida com a riqueza do petróleo, a Venezuela passou décadas construindo um estado forte, que se estendia até as aldeias mais distantes, por meio de escolas, estradas e delegacias de polícia. Mas as receitas das exportações do petróleo venezuelano caíram quase 90% desde o início da crise econômica em 2014, de acordo com Pilar Navarro, economista de Caracas.

Os salários públicos despencaram. As autoridades estaduais têm recorrido cada vez mais à corrupção e à extorsão. De acordo com entrevistas com policiais, os agentes de segurança passaram a vender armas e informações a grupos criminosos e cobrar deles por proteção, e o governo começou a se retrair em grandes áreas do país.

No sul, violentos grupos armados conhecidos como sindicatos dominam a mineração ilegal e gerenciam o fornecimento de eletricidade e combustível, ao mesmo tempo em que fornecem equipamento médico para clínicas nas cidades que controlam.

Ao longo da fronteira de quase 2.300 quilômetros entre a Venezuela e a Colômbia, quem domina é o ELN e outros grupos insurgentes. Apenas uma década atrás, a cidade de Paraguaipoa, na península de Guajira, contava com vários bancos, correio e tribunal. Todos fecharam desde então. O hospital está sem remédios básicos. A energia acaba por dias a fio. Os canos de água estão secos há anos.

Na estrada interestadual que vai de Paraguaipoa até a fronteira, oito diferentes órgãos de segurança do governo têm postos de controle - polícia estadual, polícia nacional, agência de inteligência, Guarda Nacional e Exército. Mas usam os postos para extorquir comerciantes e migrantes que tentam escapar da Venezuela, o que só aumenta a desconfiança em relação ao governo.

A poucos passos da estrada, a presença do Estado se evapora. O ELN e outros grupos armados controlam as inúmeras trilhas de terra que serpenteiam em direção à fronteira porosa - e o contrabando que flui por elas.

“Temos de conviver com quem está aí, essa é a realidade”, disse Fermín Ipuana, funcionário de transporte local em Guajira. “Ninguém aqui confia no governo. O governo só extorque. As pessoas procuram ajuda de outro jeito.”

O tráfico de gasolina para a Colômbia - que sustentava a escassa economia de Guajira quando o combustível venezuelano era abundante e subsidiado - diminuiu à medida que as refinarias do país quase pararam. As comunidades Wayuu, que por décadas ganharam a vida traficando mercadorias pela fronteira, começaram a passar fome.

O combustível agora vem da direção oposta - da Colômbia - para amenizar a escassez crônica no país, embora a Venezuela tenha as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. “Não tem nada aqui, só uma morte lenta”, disse Isabel Jusayu, tecelã wayuu na cidade de Guarero.

Os turistas que compravam suas redes e bolsas de tecido desapareceram com a pandemia. Sua família agora sobrevive indo de bicicleta até a Colômbia todas as semanas para vender sucata. Mas Jusayu está presa em casa por causa de uma bala perdida que a feriu durante a recente guerra de gangues.

Quando a violência estourou em Guarero no ano de 2018, a polícia e os soldados ficaram impassíveis, enquanto os criminosos travaram uma batalha brutal pelas rotas de contrabando, de acordo com moradores e ativistas de direitos humanos locais.

Homens armados aterrorizaram bairros a poucos passos de distância do quartel militar, atirando nas casas, disseram eles. O tiroteio se tornou algo tão comum em Guarero que papagaios de estimação começaram a imitar tiros de metralhadora. Moradores disseram que seus filhos ficaram traumatizados.

Com o aumento da violência, clãs Wayuu inteiros se tornaram alvos. Magaly Baez disse que dez de seus parentes foram mortos e que toda a sua aldeia, localizada ao longo de uma importante rota de tráfico de gasolina, foi demolida. A maioria dos habitantes fugiu para a Colômbia.

“Passamos fome, sofremos humilhações”, disse Baez. “O dia todo ouvimos as crianças chorando: ‘Mamãe, quando vamos comer?’”.

Moradores falaram de massacres, toques de recolher forçados e valas comuns que trouxeram para seu canto remoto na Venezuela o tipo de terror que a Colômbia experimentou durante décadas de guerra civil. “Se você está vivo, está em silêncio”, disse Baez.

Algumas pessoas ousaram denunciar homicídios, mas isso não gerou acusações formais, disseram os moradores. Os crimes ficaram impunes - até que, no ano passado, o ELN interveio para ajudar, disse Hernández, o líder Wayuu em Guarero. Seu relato foi corroborado por entrevistas com dezenas de outros moradores indígenas.

Quando o ELN assumiu o controle no ano passado, os conflitos diminuíram e os refugiados começaram a retornar. A vida voltou às ruas em cidades até então desertas, e os jovens em bicicletas e motocicletas retomaram o transporte de combustível da Colômbia para revender na Venezuela.

Em Guarero, quando o calor dá uma trégua ao pôr do sol, as crianças se encontram no campo de futebol onde Junior Uriana, de 17 anos, foi morto a tiros em 2018.

Sua tia, Zenaida Montiel, enterrou-o em seu quintal, numa cova simples, ao lado de seu filho, José Miguel, assassinado uma semana antes. Montiel disse que ainda não sabia por que eles morreram. E estava com muito medo de ir à polícia ou pedir ajuda, disse. Agora as coisas mudaram, disse ela. “Temos uma nova lei agora”, disse ela. “Eu me sinto mais segura”./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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