REUTERS/ Ueslei Marcelino
REUTERS/ Ueslei Marcelino

Guaidó diz ter apoio de militares contra Maduro e chavismo reprime manifestantes em Caracas

Opositor aparece na Base Aérea de La Carlota, em Caracas, no começo da manhã ao lado de seu padrinho político, Leopoldo López – que fugiu da prisão domiciliar com auxílio de dissidentes chavistas

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 07h51
Atualizado 30 de abril de 2019 | 16h51

CARACAS  - O líder opositor venezuelano Juan Guaidó incitou nesta terça-feira, 30, uma tentativa de sublevação militar contra o presidente Nicolás Maduro. Guaidó apareceu na Base Aérea de La Carlota, em Caracas, no começo da manhã ao lado de seu padrinho político, Leopoldo López que fugiu da prisão domiciliar com auxílio de dissidentes chavistas – e disse ter apoio de parte da cúpula do Exército para derrubar o líder chavista.

Pouco depois, manifestantes antichavistas e forças de segurança entraram em confronto em Caracas e nas cidades de Maracaibo e San Cristóbal. Ao menos 11 pessoas foram presas em quatro Estados, segundo a ONG Foro Penal Venezuelano. Cinco delas foram detidas em Zulia,  duas em  Táchira, duas no Estado de Lara e duas no Estado de Carabobo. 

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A intentona ocorre um dia antes de grandes manifestações convocadas contra o chavismo na Venezuela, marcadas para o Dia do Trabalho. Analistas e parte da imprensa venezuelana acreditam que o plano, batizado de Operação Liberdade, foi antecipado, em virtude de temores de que Guaidó pudesse ser preso pelo governo. Há relatos de que militares que prometeram aderir à sublevação desistiram na última hora. Em Caracas, 25 militares de baixa patente solicitaram asilo na Embaixada do Brasil em Caracas.

“Hoje, bravos soldados, bravos patriotas leais à Constituição, atenderam ao nosso chamado”, disse Guaidó na entrada da Base Aérea de La Carlota, em Altamira, no leste de Caracas. “O fim da usurpação começa hoje.”

Pouco depois de Guaidó e López discursarem, começou o confronto entre militares dissidentes e manifestantes contra tropas ainda leais a Maduro. Um blindado da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) avançou contra a multidão e chegou a atropelar algumas pessoas. A multidão jogou pedras e paus contra os guardas, que responderam com balas de borracha e bombas de gás. 

A fuga de Leopoldo López da prisão domiciliar

O número dois do governo chavista Diosdado Cabello disse que  López fugiu da prisão domiciliar em Caracas com o auxílio de agentes do serviço secreto, o Sebin, que aderiram à oposição na tentativa de derrubar o governo. De acordo com Diosdado, houve um adiamento proposital na troca da guarda para que López deixasse a casa.

Segundo López,  esses agentes reconheceram um decreto da Assembleia Nacional, controlada pela oposição, que anulava sua pena 14 anos de prisão por liderar protestos de 2014 contra o presidente Nicolás Maduro.

“Há generais, coronéis, majores e tenentes”, disse Guaidó, sobre os dissidentes que o apoiam, sem dar detalhes de quem são e quais seus nomes.  Há relatos de que o principal general que teria se aliado a Guaidó seria José Ornellas Ferreira, chefe de gabinete das Forças Armadas, além de alguns agentes do Sebin. Se isso for confirmado, representaria um ganho importante para Guaidó, que até agora reuniu apoio de soldados de baixa patente e alguns oficiais da reserva e adidos militares. 

Chavismo reage com censura e mobilização

O ministro da Defesa Vladimir Padrino disse que a tentativa de golpe foi debelada em todos os regimentos militares.  Cabello convocou militantes chavistas e milícias civis armadas a defender o Palácio de Miraflores. Algumas centenas de pessoas apareceram. 

O chavismo também reagiu para tentar debelar o apoio da população a Guaidó. O metrô de Caracas foi fechado para dificultar a mobilidade urbana na cidade e dificultar a reunião de pessoas. A CANTV – estatal de telecomunicações – derrubou o acesso a redes sociais como o Twitter, o Facebook e o YouTube, que podiam ser acessados apenas via VPN.

Além disso, a Conatel, entidade que regula o setor, tirou do ar a Caracas Radio, última emissora crítica ao governo ainda no ar. Os canais de TV aberta, em sua grande maioria controlados pelo governo, não noticiaram a sublevação.

Bolsonaro fala em apoio do Brasil aos venezuelanos

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) usou sua conta no Twitter nesta terça-feira, 30, para demonstrar solidariedade ao povo da Venezuela.  "O Brasil acompanha com bastante atenção a situação na Venezuela e reafirma o seu apoio na transição democrática que se processo no país vizinho", tuitou Bolsonaro, que escreveu também que "o Brasil está ao lado do povo da Venezuela, do presidente Juan Guaidó e da liberdade dos venezuelanos".

Pouco antes, em declaração ao Estado, o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, disse que a ida às ruas de Guaidó e do líder oposicionista Leopoldo López, que estava em prisão domiciliar, mostra que "houve um passo decisivo, sem volta" na situação no país vizinho.  

 

EUA prometem alívio de sanções a quem romper com Maduro

Os Estados Unidos passaram a oferecer o alívio de sanções econômicas e diplomáticas impostas a aliados do regime de Nicolás Maduro se houver uma adesão ao movimento iniciado pelo autoproclamado presidente interino da Venezuela, o opositor Juan Guaidó. Isso inclui sanções impostas à petrolífera venezuelana PDVSA, que teve ativos bloqueados.

O Departamento do Tesouro americano divulgou há pouco uma nota em inglês e em espanhol, atribuída ao porta-voz do órgão, na qual os EUA alegam que “o caminho para alívio de sanções individuais e de entidades ligadas ao antigo regime de Maduro, incluindo instituições como a PDVSA, é mudar o comportamento através do apoio a um líder venezuelano democraticamente eleito e àqueles que buscam a restauração da democracia”.

O assessor de segurança nacional dos EUA, John Bolton, publicou o comunicado no Twitter e indicou que o “único caminho” para o alívio das sanções é aceitar “a generosa oferta de anistia de Guaidó”. O Tesouro americano informou que os EUA “continuarão” a cobrar os responsáveis que se colocam “no caminho para a restauração da democracia”./  NYT  e AP


 

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