REUTERS/ Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/ Carlos Garcia Rawlins

Guaidó mobiliza parte dos militares, mas Maduro sufoca protestos e resiste

Chavismo fecha rádios e bloqueia internet; EUA afirmam que cúpula do governo venezuelano recuou em apoio à revolta

Alícia Hernández, ESPECIAL PARA O ESTADO / CARACAS, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 05h00

O líder opositor venezuelano Juan Guaidó mobilizou nesta terça-feira parte dos militares em uma tentativa de sublevação contra o presidente Nicolás Maduro. Ao longo do dia, o governo reprimiu manifestações em Caracas e nas principais cidades do país e conseguiu manter a coesão das Forças Armadas, levando alguns opositores a se refugiar em embaixadas – entre eles, Leopoldo López, que recorreu à missão diplomática chilena. Mais de 60 pessoas ficaram feridas e 25 foram presas.

Ainda não havia amanhecido na Venezuela, mas a movimentação no WhatsApp era intensa nas últimas horas da madrugada à espera de uma mensagem que Guaidó prometera. Nas ruas escuras, blindados trafegavam fazendo barulho, despertando quem ainda não acompanhava o noticiário. Pouco depois das 6 horas, o autoproclamado presidente interino falou. 

“Começou o fim da usurpação. Estou com as principais unidades militares das Forças Armadas para dar início à fase final da Operação Liberdade”, disse. As manifestações esperadas para hoje, feriado de 1.º de Maio, se transformaram em uma tentativa de expulsar Maduro do Palácio de Miraflores. 

Guaidó estava acompanhado de seu padrinho e mentor político, Leopoldo López, que há dois anos cumpre prisão domiciliar depois de passar outros três preso em um presídio militar. Ele foi condenado a 14 anos de cadeia por liderar protestos contra Maduro em 2014. 

Tanto López quanto autoridades chavistas atribuíram ao serviço secreto chavista, o Sebin, a decisão de libertá-lo. López disse que seus captores acataram um pedido de indulto concedido por Guaidó. Diosdado Cabello, uma das figuras mais importantes do chavismo, atribuiu sua fuga à colaboração de dissidentes do Sebin. López se refugiou por algumas horas na Embaixada do Chile em Caracas, ao lado da família. Ele deixou o lugar no final do dia e foi para a Embaixada da Espanha em Caracas, informou o chanceler chileno, Roberto Ampuero. 

Enquanto lideravam a mobilização, López e Guaidó estavam cercados por dezenas de militares com faixas azuis no uniforme para sinalizar a sublevação. Havia relatos de que um dos principais dissidentes era Manuel Cristopher Figuera, que assumiu o Sebin em outubro. Ele foi acusado pelo chavismo de ter libertado López. 

Por volta das 8 horas, o clima era de entusiasmo. Centenas se juntaram aos atos, envoltos com a bandeira da Venezuela. “Agora é o momento. Temos de tirar Maduro de Miraflores e, por isso, apoiamos Guaidó”, disse a manifestante Luisa Quintero.

Pouco depois, começaram a explodir as primeiras bombas de efeito moral. Um blindado da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), leal a Maduro, avançou contra a multidão, atropelando vários manifestantes. Tiros de balas de borracha foram disparados. Segundo a secretaria de Saúde do distrito de Chacao, em Caracas, mais de 60 pessoas ficaram feridas com lesões corporais ou asfixia por gás lacrimogêneo. Há dois registros de ferimento a bala. 

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Em Miraflores, se reuniram os chavistas convocados por Cabello e pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino. Maduro não deu as caras, pronunciando-se apenas pelo Twitter para pedir unidade “contra o golpe”. “Agora, vamos ao contra-ataque”, prometeu Cabello. “O povo está em revolução para defender a pátria”, disse a militante chavista Arelis Rodríguez. O chavismo foi apoiado por Rússia, Cuba e Turquia. 

Fracasso.

Ao longo da tarde, a ausência de movimentação em guarnições militares evidenciou que a sublevação defendida por Guaidó não encontrou respaldo. Começaram então as deserções. Ao menos 25 militares pediram refúgio na embaixada brasileira. Ao Estado, o deputado Luis Silva, da Ação Democrática, disse que Guaidó deixou o ato em segurança e está em um local protegido para liderar as marchas de hoje. “Estará comandando os protestos em Caracas”, garantiu. 

Para a analista política Carmem Beatriz Fernández, o movimento lançou uma cartada final e um deles terminará se impondo, Maduro ou Guaidó. “Antecipar essa movimentação era uma tentativa de criar um fator surpresa para desconcentrar o adversário. E Guaidó conseguiu isso”, avaliou. “O fato de tantas horas terem se passado e não sejam detidos os promotores do protesto expõe debilidades claras do governo”, concluiu a analista.” / COLABOROU LUIZ RAATZ

 

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