REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (23/01/19)
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (23/01/19)

Guaidó pressiona Maduro com ajuda humanitária e ultimato europeu

O autoproclamado presidente interino da Venezuela disse que pedirá à União Europeia (UE) ajuda humanitária e proteção de ativos venezuelanos, a poucos horas do fim de um ultimato europeu dado a Nicolás Maduro

AFP, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2019 | 16h22
Atualizado 03 Fevereiro 2019 | 20h08

O autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou neste domingo, 3, que pedirá à União Europeia (UE) ajuda humanitária e proteção de ativos venezuelanos, a poucos horas do fim de um ultimato europeu dado ao presidente Nicolás Maduro para que aceite "eleições livres".

Na semana passada, França, Espanha, Alemanha, Reino Unido, Portugal e Holanda deram ultimato a Maduro: ou o presidente chavista aceitava convocar novas eleições, ou os países iriam reconhecer Guaidó como presidente interino do país, como já fizeram Estados Unidos e diversos países latino-americanos. No domingo, a Áustria também se somou ao grupo.

A ministra francesa para Assuntos Europeus, Nathalie Loiseau, havia advertido ontem que se Maduro não aceitar eleições presidenciais, “considerarão Guaidó como presidente até as eleições legítimas”. Como o chavismo não se manifestou, o anúncio deve ser feito ainda hoje. Os europeus também prometeram enviar ajuda humanitária à Venezuela.

A União Européia e o Uruguai confirmaram ontem que um grupo internacional de discussão sobre a Venezuela irá se encontrar em 7 de fevereiro, em Montevidéu, para discutir a crise no país.

“Vamos exercer nossas competências para atender à crise, restabelecer a democracia e alcançar a liberdade”, disse Juan Guaidó. O opositor anunciou que a ajuda humanitária deve começar a chegar nesta semana. Segundo Guaidó, será criada uma “coalizão nacional e internacional” com três centros de armazenamento de remédios e alimentos: na Colômbia, na cidade de Cúcuta, no Brasil, e em uma ilha caribenha. Segundo Guaidó, haverá uma mobilização para exigir aos militares venezuelanos que deixem a ajuda entrar no país.

Para Entender

Venezuelanos vão às ruas contra o governo de Nicolás Maduro; entenda os motivos da manifestação antichavista

Protestos foram convocados pela oposição e receberam apoio dos Estados Unidos.

Entre as opções estudadas pelos EUA para enfrentar o colapso da Venezuela está a abertura de um corredor para envio de ajuda humanitária. Washington disse ter prontos US$ 20 milhões para enviar em alimentos e remédios. Na madrugada de sábado para domingo, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, escreveu em sua conta no Twitter que os “Estados Unidos já estão mobilizando e transportando ajuda humanitária” para a Venezuela. Bolton postou fotos de caixas de alimentos e remédios já empacotados e prontos para o embarque.

A ideia de abrir um canal ou corredor humanitário foi respaldada pela Assembleia Nacional da Venezuela, de maioria opositora, e por 14 países que integram o Grupo de Lima em diferentes comunicados. O chavismo considera a criação de um “corredor humanitário” uma porta de entrada para forças estrangeiras interessadas em uma intervenção militar. O governo Maduro atribui a escassez de alimentos e remédios às sanções dos Estados Unidos.

Diante de uma multidão que comemorou no sábado o 20º aniversário da revolução chavista, Maduro chamou os opositores de "mendigos do imperialismo", pois os Estados Unidos ofereceram um montante inicial de 20 milhões de dólares em alimentos e remédios.

O conflito político é vivido em meio a uma severa crise econômica, com a hiperinflação e escassez de alimentos e medicamentos, que levou ao êxodo cerca de 2,3 milhões de venezuelanos desde 2015, segundo a ONU. 

Para piorar, a petroleira Pdvsa está em moratória e sua produção, em queda livre, se vê agora estrangulada por sanções dos Estados Unidos que embargarão a compra de petróleo venezuelano a partir de 28 de abril.

Racha nas Forças Armadas

Neste domingo, 3, oficiais das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (Fanb) e membros da Guarda Nacional foram para a fronteira com a Colômbia, em Táchira, n a madrugada, para supervisionar os postos fronteiriços. “Estamos na Ponte Internacional Simón Bolívar, para assegurar a defesa da pátria. Paz total por aqui”, escreveu em sua conta no Twitter o general Freddy Bernal.

A operação aconteceu horas depois de Guaidó anunciar que Cúcuta, na Colômbia, seria um dos pontos onde chegaria a ajuda humanitária internacional. A ponte Simón Bolívar liga San Antonio del Táchira, na Venezuela, com Cúcuta, na Colômbia.

John Bolton exortou ontem os militares venezuelanos a “seguir o exemplo do general Francisco Yáñez, da Aviação Militar, proteger os manifestantes e ficar ao lado da democracia”. No sábado, Yáñez não reconheceu Maduro, tornando-se o primeiro militar na ativa de alto escalão a reconhecer Guaidó. 

A Rússia criticou ontem o apoio a Guaidó, e pediu que a comunidade internacional “se concentre em ajudar a resolver os problemas da Venezuela e abstenha-se de qualquer interferência destrutiva externa”.

No sábado, o Ministério das Relações Exteriores da China, que oficialmente continua apoiando Maduro, disse que espera continuar trabalhando com Caracas “não importa como a situação evolua”.

Buscando frear a investida de Guaidó, Maduro disse no sábado garantir a proposta da governista Assembleia Constituinte de adiantar de 2020 para este ano as legislativas, apostando que a oposição perderá o único poder que controla.

"Querem entregar o país aos pedaços ao império gringo e às oligarquias locais (...) peço a você adesão máxima", lançou Maduro neste domingo aos soldados durante exercícios militares no nordeste do país.

Neste domingo, o presidente americano, Donald Trump, reafirmou que o uso do Exército na Venezuela "é uma opção" a ser considerada. Guaidó, que se autoproclamou presidente interino em 23 de janeiro, oferece anistia aos militares que tentarem virar a Força Armada a seu favor. "Tenho certeza de que muitos soldados vão repetir isso muito em breve", assegurou, referindo-se ao general. 

A especialista em assuntos militares Rocío San Miguel estimou que as declarações oficiais antecipam "o conflito que há dentro da Força Armada contra Maduro".

Manifestações na Venezuela continuam

Guaidó se autoproclamou após o Congresso declarar Maduro "usurpador", ao assumir em 10 de janeiro um segundo mandato considerado ilegítimo - também por parte da comunidade internacional - por resultar de eleições "fraudulentas". 

Maduro, de 56 anos, afirma ter o apoio de China e Rússia, no que considera uma luta geopolítica na qual Washington usa Guaidó de "fantoche" para dar um golpe de Estado e ficar com as riquezas petroleiras da Venezuela.

Advertindo que este mês será "decisivo" para tirar Maduro do poder, Guaidó anunciou uma mobilização para 12 de fevereiro, no Dia da Juventude.

Maduro tem abordado de forma reiterada uma negociação, mas Guaidó assegura que não se prestará a diálogos "falsos" e que os venezuelanos "permanecerão nas ruas até que a usurpação cesse".  Na semana passada, distúrbios deixaram 40 mortos e 850 detidos, segundo a ONU./ AFP, REUTERS e AP


 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.