Guantánamo afegã põe presos no limbo

Base americana de Bagram mantém 630 suspeitos de terrorismo detidos sem acusação nem direito a visitas

Adriana Carranca, enviada especial de O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2009 | 07h09

Khalid conversa por videoconferência com filho detido na Base de B agram. Foto: Adriana Carranca/AE   CABUL - Vinte meses depois do desaparecimento do filho, Khaliq, de 60 anos - que, como muitos afegãos, não tem sobrenome -, teve a chance de vê-lo novamente. Por meio de uma tela de TV. Num sábado, o filho ia de Sangin para Nad Ali, distritos distantes poucos quilômetros, na Província de Helmand, para uma reunião com agricultores. Nunca mais voltou. Ele está preso desde então na base aérea americana de Bagram, uma hora de carro ao norte de Cabul. Como os outros parentes dos presos de Bagram, Khalid não fora avisado sobre o paradeiro do filho e nunca soube o motivo de sua prisão.   Suspeitos de terrorismo, os presos de Bagram são mantidos isolados, alguns estão lá há seis anos, sem visitas ou benefícios legais. Pelo menos dois presos morreram em 2002 - estavam acorrentados em pé e tinham marcas.     Veja também:   Veja mais fotos da viagem de repórter   Afeganistão se converte na guerra de Obama   'Que os EUA preparem os caixões para seus soldados'   Taleban impõe seu 'Emirado Islâmico afegão'   Ópio garante 30% do PIB do Afeganistão   Vício flagela refugiados em Cabul   Mulheres afegãs vivem à sombra das tradições tribais Os cenários da guerra que Obama travará no Afeganistão  Bagram é a Guantánamo de Barack Obama. Embora o presidente dos EUA tenha anunciado o fechamento da prisão na base americana em Cuba, a Casa Branca tem um plano de US$ 60 milhões para quase dobrar a capacidade de Bagram, hoje com 630 presos. Em Guantánamo restaram 240. Em 2004, a Suprema Corte dos EUA deu aos presos de Guantánamo direito a advogados e julgamento. Os de Bagram não têm nem uma coisa nem outra.Representados pela organização International Justice Network, de Nova York, quatro detentos de Bagram pedem direito a habeas-corpus.Eles teriam sido capturados fora do Afeganistão. O juiz da Corte Distrital de Columbia, John Bates, deu prazo até amanhã para que Obama reveja os direitos dos quatro presos. "Exceto pela localização, eles não são diferentes dos presos em Guantánamo", escreveu. Os advogados da gestão George W. Bush argumentavam que Bagram era diferente porque a maioria dos presos foi pega em combate. E libertá-los representaria perigo. Mas os EUA são acusados de enviar não-afegãos suspeitos de terrorismo para Bagram desde que alguns privilégios foram concedidos a presos de Guantánamo. Em janeiro, Obama criou uma força-tarefa para rever, em seis meses, a política para os presos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) defende que os presos de Bagram tenham todas as garantias legais. Enquanto aguarda, tenta convencer os EUA a, pelo menos, permitir visitas. Em setembro, os EUA autorizaram o uso de teleconferência, já testado no Iraque. O CICV também promove a troca de cartas, mas a maioria dos afegãos é analfabeta. Das 18 famílias presentes no dia em que o Estado acompanhou o programa, 3 assinaram o livro de visitas. O restante deixou a digital do polegar pintado de azul - não sabem escrever o próprio nome.Centenas de famílias têm cruzado o país para falar com filhos, pais, maridos ou irmãos nos 20 minutos permitidos - longos para quem antes não tinha nada, curtos para quem tem saudade. Foram mais de 1.800 ligações. Parentes acomodam-se, ansiosos, em três cabines com monitor de TV e telefone, na sede do CICV em Cabul. A organização paga a viagem. Khalid não teria os 100 afeganes (US$ 2) para o ônibus até Helmand. Quando a imagem do filho aparece na TV, Khalid gruda o telefone na orelha, arregala os olhos e aproxima o rosto envelhecido na tela, como se quisesse ficar mais perto. As emoções variam entre alegria e frustração. "Por que isso aconteceu? Nunca houve crime na família", diz. Delação de vizinhos Emocionado, Khalid passa o telefone ao neto, Hamidullah, que não via o pai desde que tinha a metade de seus 5 anos. "O que você está fazendo aí?", perguntou, confuso. A maioria vem de zonas rurais miseráveis, onde não há TV nem luz. Amullah, de 27 anos, acredita que o irmão foi delatado por vizinhos: "É a miséria... Os afegãos estão brigando por comida, dando falsas informações aos americanos, entregando seus irmãos por um punhado de ?nan? (pão)." O telefone volta para Khalid e ele quer saber se o filho tem permissão para rezar. Mas se cala. Tem medo de que a ligação seja cortada. Os americanos monitoram a conversa e proíbem assuntos fora do círculo familiar, em especial sobre as condições na prisão. O diálogo segue banal. Na saída, Khalid desabafa: "Ficamos quatro meses sem notícias. Achei que ele tinha sido sequestrado. Até hoje não sei qual é a acusação contra meu filho", diz. "O Taleban, esse governo... Não estamos felizes com nenhum deles. Só sabem defender interesses próprios. "No Afeganistão, quando o pai está ausente é o filho mais velho, e não a mãe, quem assume a casa. Aos 14 anos, o filho de Dawood, um mulá preso quando conduzia a reza na Província de Khost, sustenta oito irmãos e a mãe. "As forças de coalização invadiram a casa e levaram os homens", conta Abdul Wodad, de 40 anos, irmão de Dawood. "Não temos boas lembranças dos taleban, mas a situação atual é agonizante. Prisões sem acusação, bombardeios contra civis, corrupção. Ninguém se importa com o povo afegão." Mohamed Kamin, de 42 anos, leva pela primeira vez a mãe para ver o irmão, Mujadadi, preso há 25 meses. A família veio de Jalalabad. "Como você está sobrevivendo, meu filho?", pergunta. Ela chora quando ele some da tela."A videoconferência é um passo importante para assegurar contato entre os presos e as famílias", diz Franz Rauchenstein, chefe do CICV no Afeganistão. "Mas nada pode substituir o direito a visitas." O CICV também monitora a condição de 13 mil presos pelas autoridades afegãs e tropas da Otan - eram 5 mil em 2006. Estão em celas com capacidade para apenas 25% deles. PRESÍDIO NA BASE AÉREA 630 suspeitos estão detidos em Bagram - em Guantánamo, são 240 presosUS$ 60 milhões é o orçamento planejado pela Casa Branca para dobrar a capacidade da prisão afegã var keywords = "";

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