Guantánamo, ponto fraco de Obama, mantém-se retrato da guerra sem fim

Os complexos de metal e arame farpado permanecem sob o escaldante sol caribenho, jornalistas e advogados ainda são submetidos a controles abusivos e tribunais militares - criados para julgar presos nunca acusados formalmente - continuam a produzir aberrações jurídicas. Até agora, Barack Obama está longe de realizar uma de suas primeiras promessas: fechar a infame prisão de Guantánamo, em Cuba.

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2010 | 00h00

O prazo que ele havia estipulado expirou em janeiro. E, na semana passada, o centro de detenção superou uma nova marca, ao processar pela primeira vez na história um menor de idade por crimes de guerra.

A convite do Pentágono, o Estado visitou a prisão e assistiu às audiências da corte militar instituída por Obama. No banco dos réus sentava um dos mais polêmicos presos de Guantánamo, o canadense Omar Khadr, acusado de ter matado, aos 15 anos, um militar dos EUA no Afeganistão (mais informações nesta página).

"Desde que Obama prometeu que fecharia isso aqui, há um sentimento geral de otimismo entre os presos", diz o tenente-coronel Andrew McMans, vice-comandante da prisão, ao cruzar os portões do complexo. McMans gosta de repetir que é engenheiro químico de formação. Administrar Guantánamo é "apenas seu hobby". Embora o Pentágono não confirme, atualmente vivem na prisão 183 homens de 24 nacionalidades, com idade entre 23 e 62 anos. São divididos em seis campos, segundo critérios de periculosidade e obediência.

A poucos metros da praia, cinco chineses da etnia uigur plantam flores e melancias no Campo Iguana, enquanto aguardam algum país que aceite recebê-los como refugiados. Eles foram liberados pela Justiça americana, mas não têm para onde ir.

Em situação oposta, cerca de 40 presos considerados "muito perigosos" ocupam áreas reservadas da prisão. Alguns ficam no Campo 5, onde têm quatro horas de recreação em jaulas com bolas de futebol e tapetes para reza. Os mais perigosos, incluindo supostos envolvidos no 11 de Setembro, estariam no Campo 7, cuja existência é negada por autoridades e ao qual jornalistas nunca tiveram acesso. Obama decidiu que cerca de 15 desses presos seguirão detidos indefinidamente sem julgamento.

Nintendo. Entre os uigures e os "altamente perigosos" está a imensa maioria dos detentos, vivendo uma rotina pacata nos Campos 4 e 6. Todos vestem branco (laranja é a cor dos que não cooperam) e têm até 18 horas de recreação. Alguns gastam o tempo jogando futebol ou se exercitando. Ao ser fotografado enquanto fazia cooper, um deles brincou: "Coloque minha foto ao lado da de Bin Laden."

Quem não gosta de esporte pode escolher o cardápio de passatempos oferecido pelos guardas. Um dos jogos mais populares é o videogame Nintendo DS. Há ainda outras opções: xadrez, resta um, gamão, sudoku e batalha naval. Leitores contam com uma biblioteca de 17 mil livros, além do jornal Usa Today e a versão árabe da National Geographic. DVDs são outra opção - os mais disputados são os de pescaria e os do lutador Jackie Chan.

Esses "combatentes inimigos desleais", como são identificados pelos EUA, também frequentam cursos de árabe, inglês e literatura. Em um sinal de que sua libertação não está tão longe, 30% deles passaram a ter aula de "habilidades para a vida", que inclui no currículo temas como finanças pessoais.

"Mas o elemento decisivo aqui é a TV", diz o comandante McMans. Al-Jazira e Al-Arabiya são os campeões de audiência, seguidos por redes do Kuwait, Tunísia e Afeganistão. Todas passam pelo crivo de um "assessor cultural" antes de entrarem na grade de programação.

Desde que um preso conseguiu desbloquear canais vetados com o controle remoto, é preciso pedir para os guardas trocarem de programa. "Agora, estamos nos preparando para a Copa", explica um militar.

Outro tema cabal nos Campos 4 e 6 é a comida. Presos recebem caixotes com refeições - que podem incluir opções "vegetariana" e "light" - e preparam seus próprios pratos. A sobremesa preferida é baclava, pastelzinho árabe de massa folhada, feita pelos detentos árabes.

Questionado se poderia levar o Estado a salas de interrogatório, McMans disse que Guantánamo não é lugar de "entrevistas forçadas". Os guardas garantem que os presos podem falar livremente com advogados, mas o simples fato de estarem isolados em Cuba restringe o contato, que não pode ser feito por telefone. Quatro vezes ao ano, detidos ligam por skype para parentes, acompanhados de militares e de funcionários da Cruz Vermelha. Alguns estão há oito anos na prisão sem nenhuma condenação ou mesmo acusação formal.

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