Guarda iraniana controla o país e sufoca opositores

Fortuna e poderes adquiridos pelo grupo cresceram com Ahmadinejad

AP e Guardian, TEERÃ, O Estadao de S.Paulo

22 de julho de 2009 | 00h00

Enquanto a elite política e os clérigos do Irã estão divididos quanto à crise deflagrada pelas eleições, a instituição econômica, social e política mais poderosa da nação - a Guarda Revolucionária Islâmica - emerge como a força que controla os esforços para esmagar o movimento de oposição que ainda contesta a votação. Desde suas origens, há 30 anos, como milícia de viés ideológico a serviço dos líderes revolucionários islâmicos, o grupo cresceu e assumiu um papel cada vez mais agressivo em praticamente todos os aspectos da sociedade iraniana. Sua tendência a silenciar posições discordantes levou muitos analistas políticos a descrever os acontecimentos que cercam as eleições presidenciais como um golpe militar. "Deixou de ser uma teocracia", afirmou Rasool Nafisi, especialista em Irã e coautor de um exaustivo estudo sobre a Guarda Revolucionária para a organização Rand. "É um governo regular de segurança militar, que tem a fachada de um sistema clerical xiita". A Guarda Revolucionária tornou-se um vasto conglomerado com base militar, que controla as baterias de mísseis do Irã, supervisiona o programa nuclear e um império de negócios que vale bilhões de dólares e se espalha por todos os setores da economia. O grupo administra as clínicas de cirurgia a laser dos olhos, a produção de automóveis, constrói estradas, explora gás e petróleo e controla o contrabando no mercado negro. Sua fortuna e seu direito adquirido cresceram durante a presidência de Mahmoud Ahmadinejad. Desde 2005, quando ele assumiu, as empresas ligadas à Guarda Revolucionária ganharam mais de 750 contratos com o governo para projetos de construção e de exploração de petróleo e gás. Os ex-alunos da Guarda Revolucionária ocupam cadeiras no Parlamento e cargos no alto escalão do governo. Ahmadinejad é um ex-membro, assim como o presidente do Parlamento, Ali Larijani. A influência do grupo penetra também no sistema educacional, doutrinando os estudantes a respeito da lealdade ao Estado. "São eles que propõem uma modernização autoritária, convencidos de que os clérigos deveriam continuar legitimando o regime, como uma espécie de capelães militares, mas definitivamente sem dirigir o show", disse um cientista político que trabalhou no Irã e pediu para não ser identificado. A influência da Guarda Revolucionária é grande porque, por um lado, ela apresentam uma fachada de unidade em um Estado em que o poder sempre sofreu divisões. Por outro, os clérigos têm muitos programas e facções diferentes. Entretanto, por baixo da superfície opaca e disciplinada da Guarda Revolucionária há fraturas. Analistas dizem que, nos bastidores, houve discordâncias quanto à condução das eleições e das manifestações contra os resultados. "Pelo menos uma parte dos mais altos comandantes da Guarda Revolucionária não está satisfeita com o que está acontecendo", disse Muhammad Sahimi, professor da Universidade do Sul da Califórnia, que diz ter uma rede de contatos em todo o país. "Há até mesmo informações de que alguns membros da Guarda Revolucionária também protestaram." NOME ?SAGRADO?O site reformista Salaanews informou ontem que Hassan Khomeini - neto do aiatolá Ruhollah Khomeini, pai da Revolução Islâmica - deixou o Irã e viajou para um país vizinho, para não ter de participar da cerimônia de posse de Ahmadinejad. Nas eleições, Hassan apoiou o candidato derrotado Mir Hossein Mousavi. Sua ausência será um golpe para as autoridades iranianas, que pretendiam usar o nome "sagrado" da família Khomeini para conferir legitimidade ao evento.

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